Ttulo: ACobiada Lady Lindsey.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1987.
Ttulo Original: Love and Kisses.
Gnero: romance.
Digitalizao: Fernando Jorge Alves Correia.
Correco: Dores Cunha
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente  leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de direitos de autor,
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BARBARA CARTlAND
A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, com 350 milhes de livros vendidos em todo o mundo

ACobiada Lady Lindsey

Contracapa: Amanhecia em Londres. Escondida na carruagem, trmula de susto e ansiedade, Arilla observava os dois homens que iam bater-se em duelo por sua causa.
Um deles a queria para amante; o outro a defenderia
at a morte. Por um dos dois batia alucinado seu
corao de mulher apaixonada. O mediador comeou a contar... um, dois, trs... dez passos. Fogo! Ao abrir os olhos, um grito escapoulhe da garganta. Quem estaria
cado ensanguentado no cho (fim da contracapa)?

BARBARA CARTLAND
ACobiada Lady Lindsey

Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.

Ttulo original: Love and Kisses
Copyright: (c) Cartland Promotions Ltd. 1986
Traduo: Maria Thereza Dias de Andrade Castello
Copyright para a lngua portuguesa: 1987
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2. 000 - 3.  andar
CEP 01452 - So Paulo - SP - Brasil
Caixa Postal 2372

Esta obra foi composta na Tipolino Artes Grficas Ltda. e impressa na Editora Parma Ltda.

NOTA DA AUTORA
Apesar de no ser bem-aceito, o duelo no fora proibido de fato at a era vitoriana. E, mesmo assim, continuou sendo considerado o meio mais honroso de se resolver
uma contenda entre cavalheiros.
Em 1809, lorde Castlereagh bateu-se em duelo com George Canning, sob leis governamentais e, na mesma poca, o famoso duque de Wellington fez o mesmo com o conde
de Winchilsea.
Em 1798, William Pitt, o Moo, duelou com um membro do partido poltico ingls, George Tierney. Como Pitt era extremamente magro e Tierney demasiado gordo, foi sugerido
que se marcasse com giz o contorno da silhueta de Pitt sobre o corpanzil de Tierney e que qualquer perfurao fora dessa rea no fosse considerada.
Tenho em minha casa um retrato da linda mas infame condessa de Shrewsbury, cujos restos mortais descansam na Igreja de St. Giles. Ela foi amante do segundo duque
de Buckingham, um campeo de tiro, e com ele planejou o assassinato do conde, seu marido.
A condessa compareceu ao duelo fatal trajada como pajem e assistiu  morte do conde pela arma assassina de seu amante. Em seguida deitou-se com o duque, que ainda
vestia a camisa manchada com o sangue de seu prprio marido.

CAPTULO I
1817
Arilla olhou ao longo do malcuidado caminho de acesso  velha residncia.
J ia voltando para a casa, desalentada, quando vislumbrou qualquer coisa a distncia.
Em um segundo constatou serem cavalos e deu um grito de alegria.
Para poder ver melhor, subiu os degraus cobertos de limo da corroda escada de pedra que dava para a entrada principal.
Era uma carruagem que se aproximava, puxada por uma parelha de alazes, idnticos em porte e cor.
Quando chegou mais perto, ela identificou, com alegria no corao, o condutor da elegante viatura, que, com um gesto largo e cavalheiresco, tirou o chapu para cumpriment-la.
- Harry! - exclamou ela. - Eu sabia que voc viria!
O homem entregou as rdeas ao cavalario que, abandonando o assento descoberto do carro, j tinha pulado ao cho.
A carruagem era do tipo faetonte: alta, de quatro rodas e de fino acabamento. Porm no era to veloz e eficiente quanto o ltimo modelo introduzido na Inglaterra,
pelo prncipe regente. Contudo era mais leve, com melhor molejo e bastante rpida em vias no lamacentas.
Sem pressa, o cavalheiro circundou o faetonte e, antes de subir os degraus, lanou um olhar para a casa. Havia uma expresso de desprezo naquele semblante formoso
e msculo.
Era de se esperar, pois o solar estava em um estado lastimvel, com pedras precisando de reparos e muitos vidros quebrados, pedindo substituio. As trepadeiras,
havia muito tempo sem poda, emaranhavam-se desordenadamente, quase cobrindo as vidraas embaadas das janelas.
Harry fez um ar de desgosto e subiu as escadas, dizendo para Arilla:
- Exatamente duas horas para chegar at aqui; devo ter batido um recorde, a no ser que algum tenha levado menos tempo.
- Ningum dirige melhor do que voc, Harry. Alm disso, nossos visitantes no possuem animais to fogosos.
Reparando no ricto nervoso nos lbios dele, ela continuou:
- So seus?
A resposta veio, como esperava:
- Por um dia. So emprestados, como de costume.
- Oh, Harry! Voc est em m situao?
- Como sempre.
Juntos, entraram no vestbulo cujo aspecto era mais desolador do que ele imaginara. Chegaram  sala de estar, que um dia fora bonita, mas, como todo o resto da casa,
estava tristemente descuidada. As cortinas se apresentavam descoradas, o estofamento dos sofs rasgados, os tapetes ralos e as paredes com marcas de quadros ou espelhos,
antes ali dependurados.
Harry Vernon ps o chapu e as luvas de montaria sobre uma pequena mesa e alisou os cabelos com as mos. Em tom de lamento disse:
- Sinto muito, Arilla, pela morte de seu pai. Sem olh-lo ela suspirou.
- Eu e papai sempre fomos muito unidos, Harry; nossa amizade foi a melhor coisa que me aconteceu!
- disse, saudosa.
- Voc tem sofrido muito?
- Este ano que passou foi terrvel. - Depois de uma pausa, prosseguiu: - Papai ficou muito mal, em coma, e no me reconhecia mais. No havia dinheiro em casa para
pagar os mdicos, nem remdios.
Harry franziu a testa, antes de repreend-la:
- E por que no me avisou?
- Para qu? A no ser que voc estivesse com dinheiro sobrando, o que achei pouco provvel.
- Acertou! Mesmo assim eu tentaria ajud-la.
- Eu sei... eu sei. Agora, tudo acabou. Sabe, Harry, papai morreu de fato h um ano.
Harry Vernon sabia o que ela queria dizer.
Sir Roderick Lindsey sofrera uma queda, um ano atrs, durante uma caada. Daquele dia em diante, tornara-se um morto-vivo. Ficara totalmente paralisado, mas seu
corao continuava batendo. Os mdicos no conseguiram devolver-lhe a conscincia, e ele levou, a partir da, uma vida meramente vegetativa.
Foi uma tragdia para sua nica filha, que passou a trat-lo com grande devoo, durante meses de muito sacrifcio. Harry no esperava que os prximos dias fossem
muito melhores.
"Pouco ou nada poderei fazer", pensava com tristeza.
Como se tivesse lido aqueles pensamentos, Arilla o consolou:
- No se aborrea. O pior j passou e, mais do que nunca, preciso de seu auxlio. Por favor, Harry, me ajude, no tenho mais ningum...
- Farei tudo que estiver ao meu alcance, o que  muito limitado!
Enquanto falava, ele atravessou a sala e se postou  janela. Tentando esconder o embarao, ficou observando o maltratado jardim.
Era primavera, e os narcisos silvestres pareciam um tapete amargo; embaixo das velhas rvores os lilases e as margaridas-do-campo tambm estavam floridos.
Apesar do aspecto selvagem, o cenrio era bonito e levou Harry de volta  infncia.
Seus pais o deixavam ficar por muitos dias no Solar de Little Marchwood, onde sempre fora bem recebido por sir Roderick e lady Lindsey. Ambos o tratavam como o filho
que nunca tiveram. Fora sir Roderick quem persuadira seu pai, primo de lady Lindsey, a mand-lo a Eton. Tambm fora ele o responsvel por seu encaminhamento para
a guarda policial inglesa quando o pai comunicara a inteno de mant-lo na infantaria, por ser mais barato.
"Eu acho que devo a sir Roderick o meu gosto refinado!", ele pensou.
Em voz clara e firme, comunicou:
- vou ajudar voc, Arilla,  evidente. Mas s Deus sabe como vai ser difcil!
- No quero dinheiro, Harry!
Arilla fitou-o e viu surpresa em seus olhos.
- No quer? E como.
- Deixe-me contar o que tenho em mente. Mas antes vou servir-lhe alguma coisa para beber... J devia ter feito isso, mas estava to saudosa. que no quis me afastar
de voc.
Deu-lhe um sorriso franco e segredou:
- S sobrou uma garrafa do fino clarete de papai. Escondi-o dos mdicos para voc... quando viesse nos visitar.
- Pelo amor de Deus, Arilla, no me faa sentir mais culpado do que j estou.
Sem esconder a emoo, ele se dirigiu ao canto extremo da sala, onde sabia ser o lugar das bebidas. Uma garrafa de fino vinho e um copo de cristal esperavam-no.
Harry serviu-se e perguntou com delicadeza:
- Voc no vai beber comigo?
- No. O vinho  todo seu. Vai precisar de uns goles. mesmo! - Arilla afirmou.
- O que est aprontando para mim, Arilla? - ele perguntou temeroso. - Mas antes de me contar quero lhe dizer uma coisa: voc ficou uma moa linda, sabia?
Um sorriso largo serviu de agradecimento a esse elogio, provocando duas graciosas covinhas nas alvas faces de Arilla. Seus olhos, de um azul intenso, pareciam cintilar.
- Sempre desejei ouvir isso de voc!
-  a pura verdade - ele declarou, sorvendo o delicioso vinho. - Apesar de estar um pouco magra, melhorou bastante. em comparao quela menininha gorducha que voc
era.
- No to menina... - reclamou ela, corando. Tenho dezenove anos agora. Voc j imaginou, Harry, dezenove anos! Estou ficando velha!
- Ento sou o prprio Matusalm! Estou com vinte e sete.
Ambos caram na risada. Ento Harry sentou-se com muito cuidado, na gasta poltrona de gobelino, porque seus culotes eram demasiadamente justos, de acordo com os
ltimos figurinos. Ele pousou o clice na mesinha e logo Arilla lhe aproximou a garrafa.
Em vez de sentar-se na cadeira oposta, ela se ajoelhou para acomodar-se no cho, ao lado dele. Voltando o rosto iluminado para Harry, com muita graa, disse:
- Seja imparcial, julgue-me como se eu fosse uma estranha e no a pessoa que voc conhece desde o bero.
Parecendo saber o que ela ia perguntar, ele confirmou:
- Estou sendo sincero, Arilla. Voc est muito linda!
- Jura?
- com um vestido novo e um penteado adequado, ficaria sensacional!
Notando o brilho em seus olhos azuis, ele refletiu: "De que adianta tanta beleza? As nicas criaturas que aqui esto para admir-la, alm dos pssaros e das abelhas,
so os rudes trabalhadores destes campos! Sou um idiota em despertar-lhe a vaidade! "
No havia mais ningum em Little Marchwood, " lugar que ele sempre classificara como o fim do mundo.
- Exatamente o que eu precisava ouvir - ela murmurou como se falasse consigo mesma. - No poderia deixar de ser assim, pois sou muito parecida com mame. segundo
dizem.
-  mesmo. Pena desperdiar tanta beleza neste buraco. No chegou algum vizinho novo por aqui?
- Se est querendo falar num bom partido, a resposta  no."
Harry ficou quieto, e Arilla teve a certeza de que pensava na possibilidade de trazer alguns amigos para conhec-la. Mas de que jeito? Ela no tinha condies de
receb-los com boa comida e bebidas finas.
"Esta  a ltima garrafa de vinho desta casa", ela lembrara com amargura.
- Que pena! E para voc morar? Ser que no h alguma famlia...
Arilla riu do que ele estava insinuando.
- Voc conhece as pessoas daqui. Esto todas com os ps na cova e mais pobres do que eu. Nada mudou desde que ramos crianas. E as pessoas de suas relaes, com
exceo do duque, esto nas mesmas condies, no, Harry?
- O duque! - ele repetiu com um tom de escrnio.
- No me faa esquecer uma histria de Sua Graa sobre o modo como ele economiza em gorjetas... Por enquanto vamos ao que interessa: voc.
O duque de Vernonwick, primo de Harry, era o cabea da famlia Vernon, alvo de caoadas e, talvez, o homem mais avaro da Inglaterra.
Nunca se ouvira falar que tivesse ajudado algum, por pior que fosse o embarao da desventurada pessoa.
Todos se divertiam em colecionar piadas e exagerar fatos relacionados a essa figura to peculiar.
Harry lembrou-se de seu pai, quando, certa vez, o velho observou com ressentimento:
"A nica coisa que o duque nos proporciona  darmos boas risadas  sua custa".
A famlia de Harry era to pobre como a de Arilla, mas tinha sangue nobre, o que lhe dava entrada ao beau monde de Londres.
Alm disso, Harry era to carismtico e belo que at o prncipe regente tornara-se um de seus melhores amigos.
- Mas... voltando ao que falvamos - props Arilla -, voc disse que eu sou bonita e, se me vestir bem, ficarei to ou mais linda que mame, certo? Por isso, resolvi.
ir para Londres!
Harry quase caiu da cadeira, de susto.
- Como?
Ela se acomodou melhor e explicou:
- Cheguei  concluso de que, se no quiser ficar aqui mofando, ou pior, morrendo de fome, preciso me... casar com um homem rico!
Harry ia abrir a boca para falar, mas Arilla adiantou-se:
- Como voc disse, no h possibilidade de cair um anjo rico dos cus de Little Marchwood. - E sorrindo, continuou: - No h tambm esperanas de acontecer algum
acidente de carruagem aqui, s portas do solar, que me d a possibilidade de ser a enfermeira de um rico e jovem senhor. Tudo isso s acontece em histrias de prncipe
encantado, prprias dos folhetins. Ento o que pretendo  ficar conhecida na alta sociedade de Londres como a Incomparvel. S conseguirei isso com sua preciosa
ajuda.
- No vai ser possvel. Voc no entende? Assim.
Ela no o deixou continuar.
- Calma! Ainda no terminei.  evidente que no posso tornar-me a Incomparvel com este meu visual. Sei tambm que precisaria de uma dama de companhia, de acordo
com os ditames da sociedade inglesa, e isso incorreria em muitos gastos.
- E ento?
- Serei a maravilhosa e jovem viva de sir Roderick Lindsey.
Harry ficou to aturdido que no pde articular palavra. Encarou-a atnito, achando que ela enlouquecera, e balbuciou, intrigado:
- A viva de seu pai?
Exatamente. Ningum est sabendo ainda que ele morreu, exceto voc e o pessoal aqui da cidade. No tive dinheiro para pr a notcia na Gazette ou no Morning Post.
Alis, seria uma perda de tempo informar pessoas desinteressadas e distantes sobre a morte de um amigo esquecido.
- Entendo. Mas no vejo razo para tal disfarce.
- No seja ingnuo. Tudo  mais fcil para uma jovem e rica viva do que para uma inocente debutante!
- Rica? - Ele quase gritou.
-  essa a impresso que vamos passar ao mundo todo, ao universo social em que voc brilha!
Harry aprumou-se e passou a mo pela testa mida.
- Decididamente voc enlouqueceu! E o dinheiro. de onde sair?
- De nossa imaginao!
- De quanto vai precisar?
- Depois eu digo.
- Voc acha que vo acreditar em ns?
- Eles vo acreditar em voc - Arilla afirmou com segurana. - Voc vai espalhar entre seus nobres amigos que uma jovem e sedutora viva, porm bem-comportada, est
em Londres, sem conhecer ningum. No lhe passou despercebido o ar de incredulidade de Harry mas assim mesmo prosseguiu:
- Deve criar um suspense a respeito de lady Lindsey e convid-la para uma ou duas recepes, em que ela ser a sensao da noite.
- Assim... com essa apresentao?
Ele olhou-a de alto a baixo com desdm, mas ela no se perturbou.
- No sou tola como voc pensa! Planejei tudo, desde que me convenci de que ia perder meu pai. Fiquei desesperada pensando na solido em que ficaria, s tendo o
velho Johnsons para conversar. Ento fui engendrando uma maneira de mudar a situao, mesmo porque j est na hora de aposentar esse nosso leal empregado, digno
de um bom descanso.
-  uma loucura, mas continue.
- A nica coisa que me restou foram as prolas que mame me deu ainda em vida, assim como o broche de brilhantes que ela s usava nas raras mas grandes ocasies.
Arilla prosseguiu com voz embargada:
- Sempre adorei essas jias. Depois que se tornaram minhas, me apeguei mais ainda, de tal forma que no pude desfazer-me delas. Mas agora sei que s elas me abriro
as portas de um mundo novo, aquele que minha me sempre sonhou para mim. Sabe, sinto-a to perto... me inspirando, fortalecendo e amando como sempre.
- No acredito que sua me esperasse de voc o impossvel.
- Por que impossvel? - ela retrucou, meio agressiva. - Pense um pouco: voc disse que sou bonita. as jias me daro dinheiro para viver alguns meses, com parcimnia...
A nica despesa maior ser com roupas que no o deixem envergonhar-se de mim.
- No vai ser rica?
Arilla deu uma risada cristalina.
- Sabia que voc ia dizer isso. Mas muitas pessoas ricas no esbanjam dinheiro. Voc mesmo conhece gente com fama de rica que leva uma vida modesta.
-  verdade. H muitos duques por a...
- Veja lorde Colton, por exemplo. Mora aqui neste lugar e  riqussimo! Papai dizia que, quando ele recebia, oferecia uma comida to miservel e vinhos to ordinrios
que eram um verdadeiro insulto aos convidados!
- Voc tem toda razo quando diz que muitos ricos no demonstram o que tm. Eu mesmo conheo alguns.
- A nica pessoa rica que conheci foi minha madrinha, e ela me desejava bom Natal com carto que havia recebido no ano anterior. Portanto, Harry, o que voc dever
fazer  pr na cabea de seus distintos amigos que lady Lindsey  rica! E eles no vo esperar dela nada mais do que elegncia no trajar.
- Onde voc pretende ficar em Londres?
- Eu pensei. que talvez voc. pudesse me ajudar. Se eu alugasse uma casa por dois meses... no sobraria o suficiente para comprar os vestidos!
- Pronto, chegou onde eu queria. Ento no h nada a fazer...
Mas, quando ele viu o desapontamento nos olhos midos de Arilla, no resistiu e disse:
- Espere um pouco, tive uma ideia!
- Teve? - ela exclamou, reanimada.
- Quando recebi sua carta comunicando-me a morte de seu pai e que voc queria me ver, tinha acabado de me despedir de uma amiga que ia a Paris, onde ficaria por
dois meses.
Arilla no o interrompeu. Seu semblante mostrava uma comovedora expresso de esperana.
- Minha amiga no pertence  alta sociedade prosseguiu ele - e tambm no  uma pessoa que eu possa apresentar a voc. Contudo est bem instalada
em uma luxuosa casa em Islington. Antes de partir me disse que, se eu tivesse algum problema com acomodao, poderia dispor dessa casa, bem como da criadagem.
- Oh, Harry!. Voc acha.
- H certamente uma possibilidade - ele interrompeu - e ento a nica despesa seria com a comida e com generosas gorjetas para os empregados a seu servio.
Ela deu um gritinho de alegria e se aproximou mais.
- Voc quer dizer que. vai fazer isso por mim?
- Acho que  uma ideia absurda, louca e ridcula! Mas  melhor do que deix-la ficar aqui para sempre!
- Oh, Harry!
As lgrimas j inundavam os grandes olhos de Arilla que, sem poder evit-las, deixou que se derramassem copiosamente por suas faces acetinadas.
Abraando os joelhos, ela ergueu o olhar para Harry e balbuciou com doura:
- Eu... eu sempre achei que voc era bonzinho. o mais maravilhoso primo que algum poderia ter!
- No me agradea ainda! J est resolvido que tomaremos parte nessa corrida mas. h muitos obstculos para transpor antes de atingirmos a linha de vitria!
Arilla, com um gesto infantil, enxugou as lgrimas com o dorso das mos e disse:
- Eu sei. Mas eu prometo: tudo que conseguir dividirei com voc.
- Espera l. O que quer dizer com isso? - perguntou ele, num tom de reprovao.
- No seja tolo e orgulhoso, Harry. Ns sempre repartimos tudo quando crianas, porque no continuar fazendo o mesmo? No vou achar ruim.
- Mas eu vou. Explique-me melhor, Arilla!
- Bem, se eu me casar com um homem rico, pretendo dar-lhe tudo o que voc no pode ter agora.
Harry teria retrucado, mas ela ergueu os dedos e pressionou-os contra os lbios dele, impedindo-o de falar.
- Estamos juntos nessa luta, Harry. Podemos perder ou ganhar. Se voc se recusar, eu ficarei aqui at o fim de meus dias como solteirona.
Ele no pde deixar de rir e declarou:
-  bobagem brigarmos por alguma coisa que no aconteceu e...  poder no acontecer! Se depois de dois meses voc ficar encalhada em minhas mos, eu a largarei no
primeiro asilo de indigentes que encontrar!
- No, no vai ser preciso... tudo dar certo com voc a meu lado. - Fez uma pausa e depois confessou:
- Detesto v-lo vivendo  sombra de seus amigos nobres e ricos, para poder manter seu alto padro de vida. Voc, por si s, no poderia vestir-se assim to bem e
nem ter, como no tem, cavalos prprios. Enfim, no seria o cavalheiro elegante que .
- No fale assim; estou prestes a romper em pranto - ele brincou e, rindo, pediu que ela se calasse.  melhor planejarmos juntos esse conto de fadas, nos prevenindo
para que voc no seja agarrada por algum monstro ou devorada por um drago faminto, assim que chegar a Londres!
- Se voc me ajudar. . . nada disso ir acontecer.
- Vou ajud-la. . . mas, se no der certo, serei o mais perfeito candidato para o hospcio!
Ambos deram boas gargalhadas, no pela observao mas por causa do excitamento em que se encontravam.
Arilla encheu o copo de Harry, convidando-o jovialmente:
- Vamos brindar a nosso sucesso. Como h apenas um clice, beberemos os dois da mesma fonte, o que  muito simblico!
- Simblico? S me faz lembrar. . . misria! Em meio a risadas, ele ergueu o copo e desejou:
18
-  Incomparvel lady Lindsey, para que ela consiga tudo o que deseja!
Bebeu um pouco e deu a taa a Arilla, que brindou:
- Para Harry, o arcanjo que me abrir as portas do paraso.
com os olhos brilhando de alegria, ela tomou um golezinho e pousou o clice sobre a mesa.
- At que enfim, Harry, voc se convenceu de que deve me orientar para eu no fazer nenhuma bobagem!
- E voc se convenceu de que deve me obedecer cegamente!
- Alis, o que eu sempre fiz! Lembra-se de quando ramos crianas e voc me fazia de sua escrava? Eu pegava todas as bolas que saam fora no boliche e no cricket.
. . Chegava a ficar cansada!
Ele riu gostosamente.
- Naquela poca, eu achava que meninas s serviam para isso!
- E agora. .. para que mais elas servem?
- Voc vai descobrir.. .  quando morar em Londres!
Duas semanas mais tarde, viajando em uma carruagem que Harry lhe mandara, Arilla sentia-se nas nuvens. Apesar de o dia estar quente, suas mos achavam-se frias e
umedecidas.
No tinha sido difcil sonhar, durante o sombrio perodo em que seu pai jazera imvel na cama e ela ficara sem ningum para conversar, alm dos velhos e leais criados.
Eles s falavam de reumatismo e do trabalho extra que os mdicos exigiam, cada vez que eram chamados.
Passavam-se semanas sem que ela tivesse contato com algum fora de casa. Se no fosse por sua imaginao frtil, Arilla teria se sentido muito mais infeliz do que
fora realmente; os sonhos atenuaram-lhe a triste solido.
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Agora, como que por encanto, o impossvel tornava-se realizvel. Sentia vontade de se beliscar para ter certeza do que estava acontecendo.
Harry tinha voltado para Londres levando as jias. Escrevera depois contando que as vendera por mais do que esperavam. Logo despachara um vestido e um chapu de
viagem, para que ela chegasse bem-arrumada  casa de Islington.
Arilla estava curiosa em relao  moradora daquela casa, mas Harry se mantivera misterioso a respeito.
No entanto, ela intura que a mulher, por quem Harry parecia alimentar grande afeio, estava em Paris com o senhor que a presenteara com a casa de Islington. .
 .
Ela achava estranho o fato de um homem, no sendo casado, dispor de tanto dinheiro na compra de um imvel para uma mulher que mesmo Harry no admitia entre suas
melhores amigas e nem queria que ela conhecesse.
Arilla sabia da existncia de mulheres, como as artistas, por exemplo, que aceitavam convites de cavalheiros para cear, em altas horas da noite. . .
"Mas elas no fazem parte do mundo social em que lady Lindsey brilhar.. .", pensou Arilla e continuou em suas divagaes.
Precisava tomar cuidado para no cometer nenhuma gafe.
No fora  toa que a me, falecida quando ela contava dezesseis anos, ensinara-lhe boas maneiras, apesar de eles serem pobres.
Mesmo nos frugais jantares em famlia, seus pais arrumavam-se com esmero para sentarem-se  mesa. No se vestir condignamente para o jantar, cada noite, seria to
extravagante como no se lavar cada manh.
Quando ela crescera o bastante para participar das refeies, tambm fazia o mesmo.
Se havia algum prato mais sofisticado, a me se retirava com discrio para a cozinha, a fim de dar o toque final, antes que o velho Johnsons o servisse.
O pai se mantinha impassvel, fingindo no notar a ausncia da esposa que, ao voltar, mais corada, mas sempre linda, tomava seu lugar  mesa e o fio da conversa
interrompida.
Arilla sabia receber, desempenhando-se principescamente, mesmo com o vigrio, o mdico ou algum raro amigo da vizinhana.
No caso de cometer algum deslize, mais tarde, com carinho, a me a corrigia. "Querida, quando voc  apresentada a algum, deve olhar para a pessoa. A timidez no
 desculpa para baixar os olhos;  algo feio e indelicado, assim como no dar a mo na altura e com a presso certas", ensinava a me.
Arilla havia aprendido tambm a fazer reverncia  rainha para o caso, to almejado agora, de um dia ser apresentada  corte.
"Uma apresentao ao prncipe regente seria muito mais interessante", pensava Arilla. "Talvez agora isso acontea, pois Harry  to amigo dele!" De sbito lembrou-se
de que Sua Alteza preferia mulheres maduras. . . Chegara mesmo um boato em Marchwood de que ele, antes de se casar com a princesa Carolina de Brunswick, o que fora
um desastre, j tivera um casamento secreto com a sra. Fitzherbert, muito mais velha do que Sua Alteza Real. De qualquer maneira, seria excitante conhec-lo.
No entanto, o que ela precisava era de um marido rico!
Se o arranjasse, haveria de saldar todas as dvidas de Harry.  dar-lhe cavalos, criados, tudo que seu refinado bom gosto reclamava! Sabia como o primo se sentia
humilhado quando tinha de recorrer a um amigo para obter transporte de Londres at Marchwood.
Ele, que sempre fora exmio cavaleiro, at ganhara uma medalha do duque de Wellington, aps a batalha de Waterloo!
"Que pena Harry ter deixado o regimento", dissera o sr. Roderick ao terminar a guerra. Quando Arilla perguntou a razo, o velho informou-lhe, suspirando, que o rapaz
no tinha meios para se manter naquela arma e com mgoa se culpou pelo fato de no t-lo deixado fazer a infantaria.
"Ele era to hbil e garboso num cavalo que eu no resisti ao desejo de t-lo em meu regimento", concluiu o pai de Arilla.
"Harry tem que possuir cavalos", ela admitiu. "Vou fazer de tudo para que meu marido goste dele, tanto quanto eu. Ento ir morar conosco, ter cavalarios e salo
nobre para receber seus amigos!"
Arilla no conseguia imaginar o rosto de seu futuro marido, todavia sabia que iria ser um velhote um pouco barrigudo mas bondoso e compreensivo como seu pai.
A me s vezes se queixava de que ele teria dado aos necessitados sua ltima camisa se ela no o tivesse impedido.
"Poderamos ter ficado ricos", dissera uma vez. "Mas ele  muito bom e generoso em pensamentos, palavras e aes. . . e  por isso que o amo com todo o fervor!"
"Ento ele , na verdade, um homem rico, mame!", Arilla exclamara.
"Concordo e acho que ns temos muito mais do que o dinheiro poderia comprar!"
Notando a expresso intrigada da filha, lady Lindsey explicara:
"Estou falando de amor! Meu amor por seu pai, o que ele tem por mim e ns por voc! Todos os dias agradeo a Deus pela adorvel filhinha que Ele nos deu!"
Quando a me morrera, Arilla pensara que o sol tivesse abandonado aquela casa. Sabia que o pai jamais seria o mesmo.
A princpio ele se isolava, cavalgando sem destino ou bebendo muito. Mais de uma vez ela vira lgrimas indiscretas rolarem por seu rosto abatido.
Arilla quase tinha certeza de que, quando aconteceu o acidente, ele estava montando com negligncia, como que absorto na grande mgoa que pesava em seu corao.
Ela se desesperara ao v-lo sem sentidos, transportado sobre uma velha porteira, o meio improvisado pelo qual o levaram para casa. No podia acreditar que fosse
perd-lo to logo depois da morte da me.
"Por favor, meu Deus, no o leve...", ela rezara. "Se ele se for, vou ficar completa e absolutamente sozinha!"
Mais tarde viera a melhora, mas num corpo sem alma... e ela se convencera de que a morte seria uma bno, no s para ele mas tambm para os que o rodeavam.
Era desesperador ver deitado, inerte como um vegetal, aquele que outrora fora to belo e garboso!
No momento em que os mdicos, ao sarem do quarto, balanaram a cabea em sinal de que nada mais havia a fazer, ela entendeu que seu pai jamais a ouviria de novo
ou a reconheceria.
 medida que as semanas se acumulavam em meses, Arilla sentia estar perdendo no apenas o pai, mas a essncia da prpria vida!
Ento foi como se a me, para confort-la e faz-la rezar, lhe tomasse as mos pondo-as em postura de prece. Ela implorou a Deus para que no deixasse essa desgraa
afet-la a ponto de arruinar sua vida.
"Eu vou viver como a senhora queria se tivssemos tido mais posses, mame. Mesmo que seja por pouco tempo, tudo vai mudar."
Os planos de Arilla dia a dia se solidificavam, e ela examinava pormenorizadamente cada etapa de sua luta pela ascenso  glria!
Diante do espelho recordava os meneios que a me lhe ensinara. Precisava ser graciosa no andar, no movimento das mos, da cabea, na maneira de falar.
Arilla esforou-se para se pr a par das notcias do Parlamento, dos problemas sociais, enfim, entender a situao geral do pas. No foi tarefa muito fcil porque
o dinheiro de um jornal lhe fazia falta.
Sabia que o vigrio e um funcionrio aposentado do banco eram assinantes de um jornal e o aougueiro lia um pasquim, no dizer de seu pai. Tinha sido embaraoso,
para ela, pedir-lhes que guardassem esses noticiosos, mas felizmente eles logo se prontificaram a faz-lo.
O vigrio lhe fornecia o The Times com trs dias de atraso. O bancrio, leitor do The Morning Post, queria dois dias para ler... e o aougueiro no abria mo do
Reformists Register a no ser depois de uma semana. caso no o tivesse usado para embrulhar a carne. Mas muitas vezes ele o cedia antes mesmo de terminar a leitura,
em ateno  grande amizade que nutria por sir Roderick.
Arilla nunca reclamava porque, com atraso ou no ia se atualizando. Parecia-lhe que Little Marchwood ficava em um planeta diferente e que s agora ela estava descobrindo
a terra.
Esperava que seus habitantes fossem todos inteligentes e divertidos como Harry e como ela pretendia ser. Esperava tambm sair-se bem entre essas pessoas to diferentes
daquelas a que se acostumara.
Agora, o milagre comeava a se realizar: muito feliJ ela estava a caminho de Londres, em uma linda carruagem conseguida por Harry e conduzida por um cocheiro de
capa vermelha e um lacaio de libr cinzenta.
"J me sinto uma deusa, agora preciso me comportar como tal", pensou Arilla.
Harry tinha lhe mandado um vestido bem diverso daqueles que usava. Era de um azul muito vivo, todo debruado com fitinhas de cetim em tom mais escuro, formando desenhos
delicados, e tinha mangas compridas que terminavam em gracioso babado, que avanava um pouco em suas mos delicadas e alvas. A cintura era ainda alta, como a dos
modelos de durante a guerra.
Arilla nunca vira em Little Marchwood um chapeuzinho mais galante do que aquele que vaidosamente ostentava. Tinha fitas azuis amarradas abaixo do queixo, a aba circundada
com finssima renda do mesmo tom e um tufo de plumas de avestruz, em degrade azul, enfeitando a delicada copa.
Ao olhar-se no espelho, antes de sair, ela mal podia acreditar que fosse sua a imagem ali refletida. E admitira, sem falsa modstia, que estava linda!
"No vou envergonhar Harry", pensara.
E quando vira a luxuosa carruagem com dois cavalos de raa, a portinhola aberta, os criados a postos convidando-a para entrar, conscientizara-se de que uma grande
aventura comeava.
"Acontea o que acontecer no futuro, jamais me arrependerei de t-la vivido! "
CAPITULO II
A carruagem percorreu preguiosamente a alameda e parou em frente a uma suntuosa residncia, em Islington. Encantada, por uns instantes Arilla se manteve esttica,
contemplando a manso.
O lacaio apeou, tocou a sineta e a majestosa porta se abriu. No umbral surgiu uma criada, de avental branco de babadinhos engomados e gorro combinando. Arilla desceu
com elegncia.
- Bom-dia! - exclamou ao ser reverenciada pela servial.
- Bom-dia, senhora. Espero que tenha feito uma boa viagem!
- Foi muito boa, obrigada.
Sem saber se deveria ou no se despedir do cocheiro e seu ajudante, ela adentrou o imponente hall.
- O sr. Vernon est aqui?
- Est esperando pela senhora no salo - informou a criada, indicando o caminho.
Arilla mal podia conter a impacincia. Sua vontade era correr ao encontro do primo, mas... como boa menina, comportou-se.
De repente sentiu medo do que se havia proposto. S Harry poderia lhe assegurar xito nessa arriscada aventura. Rezava para que tudo estivesse bem encaminhado.
O luxuoso salo dava para um bem tratado jardim ao fundo da casa. Prximo  janela Harry cismava.
- Lady Lindsey, senhor - anunciou a criada.
Ele se voltou e Arilla, com espontaneidade, correu ao seu encontro.
- Harry! Aqui estou eu, primo. Oh! Harry, ser que vai dar tudo certo?
Ele sorriu, segurou-a pelos ombros e se ps a examin-la.
- Deixe-me ver como voc est!
Arilla fitou-o apreensiva, enquanto o primo a media da cabea aos ps.
- Perfeito! - disse ele com entusiasmo. - Exatamente como eu queria que estivesse!
- Fala a verdade?
- Claro! Do fundo do meu corao. Precisa ter mais confiana em si, Arilla.
- Eu tenho, Harry. Mas tive medo de desapont-lo.
- Que tolice! O pior seria voc se desapontar, e no eu... O que est achando do ambiente?
Ela examinou a enorme sala. A moblia, de fino brocado azul, era de incontestvel bom gosto: preciosos lustres de cristal pendiam do teto alto e lavrado. Por toda
a parte havia um fulgor de prata e ouro nos objetos de adorno.
As paredes exibiam quadros de grande beleza. "Devem ser reprodues de pintores famosos, cujos quadros esto expostos na Galeria Nacional ou em outras capitais da
Europa", ela pensou maravilhada, e respondeu:
- Digno de uma rainha!
- Tem razo. Barlow tem um gosto extraordinrio!
- Barlow? - inquiriu Arilla, curiosa.
- O nome de seu hospitaleiro, que, no entanto, no sabe que a hospeda - Harry informou rindo.
Ela se intrigou.
- Pensei que morasse uma senhora aqui. Encabulado, ele indagou:
- E que diferena faz? Veja bem, no caso de perguntarem, esta  a casa de lorde Barlow, alugada para
voc em considerao a seu falecido marido, de quem gostava muito.
Arilla deu um profundo suspiro.
- Espero me lembrar de tudo.
- Vai se lembrar - Harry afirmou com confiana.
- Agora, a primeira coisa a fazer  comprar roupas. J marquei uma costureira para depois do almoo.
- Aqui? Pensei que fssemos a alguma loja!
No seria prudente. Algum poderia v-la. Quero que voc surja no universo social como um cometa inesperado.
- Ah, no caoe! E quando isso vai acontecer?
- Amanh  noite. J est tudo programado: voc vai ser apresentada a uma importante anfitri de Londres. Se ela gostar de voc, talvez a faa entrar para o Almack's.
O Almack's era o mais conceituado e exclusivo clube londrino, onde brilhavam as grandes figuras do beau monde, e, entre elas, Harry, o protegido dos membros da corte.
Esse clube seria, para Arilla, o passaporte de entrada para toda a alta sociedade britnica.
- E quem  essa grande dama?
- A condessa de Jersey. Uma mulher caprichosa e imprevisvel. Tanto pode glorificar como destruir uma pessoa. Por isso  temida e bajulada.
Esse comentrio no foi nada entusiasmante para Arilla, como tambm no o foi o lauto almoo servido logo depois.
Harry saboreava um delicioso vinho quando ela ousou observar:
Quanto vai nos custar isso?
- Est tudo sob controle. Voc tem uma farta despensa e uma criadagem, que consiste em uma cozinheira e uma criada de quarto. S mulheres! Quando lorde Barlow se
hospeda aqui, traz um criado particular para servi-lo; por isso voc tem que se arrumar sem mordomo.
Outra vez ela se viu diante de um enigma. Se aquela era a casa de lorde Barlow, por que Harry falara "quando ele se hospeda aqui"? Mas no quis especular.
Antes do almoo, Arilla subira para tirar o chapu e se aprontar para a refeio. Ficara pasmada ante o conforto e o luxo do quarto.
Nunca havia pensado existir coisas to aconchegantes e belas: o cortinado de musselina de seda envolvendo o grande leito;os ricos tufos de renda que ornavam o toucador
antigo e os espelhos italianos que aumentavam o ambiente e refletiam sua imagem, propagando-a de parede a parede.
A camareira era uma moa encantadora, evidentemente orgulhosa de seu ofcio.
- Estou bem assim? - Arilla lhe perguntara, antes de descer.
- Sim, est linda! Parece uma lady. Desculpe, no sei se posso cham-la assim. - E a criaturinha enrubescera.
Estranha observao, mas Arilla absteve-se de comentar com Harry. Estava preocupada em agradecer-lhe aquela casa maravilhosa.
Quando o almoo terminou e eles voltaram ao salo, ela disse, um pouco ansiosa:
- Vamos ser prudentes e no gastar muito em roupas. E se tudo der em nada mais cedo do que esperamos?
Harry, sem se impressionar com a admoestao, continuou:
- Eu fiz o seguinte: prometi  costureira que aumentaria sua clientela com as muitas mulheres elegantes que vo apreciar suas toaletes. - Depois de uma pausa, acrescentou:
- Ela costura para a moa que mora aqui. mas voc vai se comprometer a arranjar-lhe novas freguesas entre as madames que conhecer. As que ela tem, na maioria, so
prosti... - Na penltima slaba parou e falou artistas.
- Ah! J sei. Ela pensa que sou uma pessoa da alta sociedade e espera que eu lhe apresente outras senhoras importantes.
Harry suspirou aliviado.
- Exato.
- E se ningum me admirar?
- Como no? Faremos o possvel e o impossvel para torn-la incomparavelmente linda! - ele exclamou confiante.
Quando a costureira chegou, Arilla surpreendeu-se com sua beleza e jovialidade.
- Estou s suas ordens, sr. Vernon. Como sempre, fui cativada pelo seu charme. A caminho questionava-me sobre a razo de minha obedincia.
- No seja irnica, Liza. Voc no se arrepender por ajudar lady Lindsey a atingir o sucesso que lhe est destinado.
Pensativa, Liza analisou Arilla. Depois, fazendo uma espalhafatosa reverncia, sorriu para Harry:
- Meus parabns, voc venceu!
Ele se desmanchou em sorrisos, como se fosse responsvel pela beleza irrefutvel da prima.
Arilla sempre havia pensado que comprar vestidos fosse um prazer. Nunca supusera ser algo to cansativo. Exauriu-se experimentando os muitos modelos que Liza trouxera.
Foi mais cansativo do que andar um dia inteiro a cavalo, ou mesmo cuidar de Seu pai doente.
Contudo, ela ficou conhecendo uma nova faceta de Harry. Jamais imaginara que ele pudesse conhecer to a fundo a arte de vestir uma mulher.
Harry sugeria alteraes em quase todos os vestidos, e era surpreendente como recebia a total aprovao de Liza. A costureira se perguntava, aps cada ideia nova
dele, por que no pensara naquela sugesto antes.
Isso aconteceu com um vestido de gaze verde, a cor dos brotos da primavera. Ele insistiu para que ela o enfeitasse com
delicadas flores na barra, valorizando-o muito. De outra feita, negou-se a comprar um determinado modelo, dizendo:
- No  prprio para Arilla... a faz mais velha e caipira!
Mas, de um modo geral, todos os vestidos eram muito lindos, dificultando a escolha.
Harry escolheu quase todos, com exceo de dois. Arilla ento no pde esconder sua perplexidade.
- Voc vai comprar. .. todos esses?
- .. .e alguns mais. Liza vai trazer figurinos, amanh.
- Mas. .. eu no vou.. . No  possvel! - ela reagiu.
E como Harry lhe lanasse um olhar reprovador, sua voz se converteu num vago lamento, sumindo pouco a pouco no silncio.
Ficou combinado que dois vestidos seriam entregues nessa mesma noite e os outros, no dia seguinte,  tarde.
Depois que Liza partiu levando as caixas na carruagem, Arilla criticou Harry severamente:
- Voc ficou louco? No vamos poder pagar esses vestidos! Alm disso, no terei chance de us-los todos.
Harry foi para junto dela e vendo-a to assustada, a ponto de tremer, disse-lhe com grave serenidade:
- Ou voc aceita minhas determinaes ou deixo tudo por sua conta.
- No, no. Pelo amor de Deus! Voc sabe que eu no posso fazer nada sozinha. Mas. . . que fortuna!
- Da qual a rica lady Lindsey pode dispor - garantiu Harry, enfatizando o adjetivo. Todavia, ao olhar para ela, to frgil e insegura, parecendo um bichinho assustado,
apiedou-se. - Deixe comigo. Prometo que tudo dar certo e voc no vai ser molestada por nenhum credor.
- Mas quase no temos dinheiro!
Ele a abraou fraternalmente, encorajando-a.
- No fique assim, Arilla. Logo seu prncipe encantado vai chegar e... vocs vivero felizes para sempre.
- No  aspirar muito? - choramingou ela.
- Que nada! Assim que voc chegou, achei que venceramos.
- Tem certeza?
- Absoluta. Sabe o que mais me entusiasma? Enganar toda essa gente pedante e convencida de que sabe e pode tudo!
A maneira alegre e decidida como ele falou imprimiu novo alento em Arilla.
- Vamos conseguir, Harry.. . vamos conseguir!
- Quando olho para voc, assim to linda, s posso achar que sim. Sabe o que Liza me disse ao sair? Ele fez uma pausa para causar impacto. - "O senhor est no rumo
certo, sr. Vernon. Ela  rica e h muito tempo no vejo criatura to encantadora! Cuidado para no perd-la."
- Falou isso?!
- Sim, moa, e esteja certa de uma coisa: ela vai decantar sua beleza a meio mundo! Amanh mesmo um bom nmero de freguesas estar falando sobre voc.
- Ai, isso me apavora, mas ao mesmo tempo  empolgante!
- E estimulante! Mas lembre-se:  muito importante voc assumir o papel que representa, para no falhar em nenhum ponto.
- Se sou to rica... ser que Liza no estranhou voc pechinchar tanto?
- Eu disse que seu falecido marido era muito econmico e voc se acostumou a isso. Reforcei dizendo que ainda no tinha tomado posse da herana. .. Recomendei a
ela que no a assustasse com esses preos exagerados da city porque voc sempre morou na zona rural.
- Mas, quando cheguei, eu estava com um chapu e um vestido bem finos. Por sinal voc no me disse quanto custaram.
- Nada.
- Como?
- Eu os pedi emprestados a uma amiguinha. Quando suas coisas chegarem, vou devolv-los.
- Oh! Harry, como vou fazer para agradecer-lhe?
- Eu agradeo por voc. Alis, tambm no posso apresent-la a voc, bem como a minha amiga que mora aqui.
- E elas so. .. suas amigas?
- Comigo  diferente!
- Ah! J sei, so.. . artistas! Por isso o vestido e o chapu so to lindos!
- So.. . so artistas - ele respondeu com rapidez. Arilla teve a impresso de que ele mentia, mas no
atinava com a razo.
Harry despediu-se, avisando que jantariam juntos.
- No se incomode, Harry. Se tiver um programa mais interessante, me arranjarei sozinha - ela declarou com humildade, mas torcendo para que no fosse verdade que
ele tivesse coisa melhor a fazer.
- Farei um pequeno sacrifcio - ele falou calmamente. - Tenho instrues a lhe dar, para evitar em baraos amanh.
- No vou me embaraar. Fique sossegado. Depois que Harry saiu, Arilla subiu para seus aposentos. Sentia-se deveras cansada.
A camareira, de nome Rose, sugeriu que ela se deitasse um pouco antes de preparar-lhe o banho.
Tal mordomia agradava-lhe muito. Arilla seguiu o conselho e, quando sua cabea tocou o travesseiro, caiu no sono.
Dormira mal a noite anterior, pois pesavam-lhe no s o futuro, mas tambm os ltimos acontecimentos de sua vida. Os Johnsons lhe causavam preocupao. Alm de seus
parcos salrios, ela lhes dera algum dinheiro que lhes provesse de alimento por um pouco de tempo.
Estava decidida a pedir a Harry uma mesada para eles, pois j haviam passado mal por ocasio da doena de seu pai. Quando fosse rica, daria uma penso generosa aos
Johnsons. Poderiam ficar morando no solar, ou ento ela lhes compraria uma casinha na cidade.
Se arranjasse um marido rico, haveria tanto a fazer com o dinheiro dele! Muita gente, como o senhor do emprio, o aougueiro, tinha sido bondosa, dando-lhe crdito
quando o dinheiro faltara. Gostaria de retribuir, assim que pudesse, apesar de no saber se sua fortuna seria de grande monta.
Que desgraa se seu "prncipe de ouro" fosse to avaro quanto os ricaos que ela e Harry conheciam! Mas, nesse caso, ela no se casaria.
Rose despertou-a, avisando que o banho estava pronto.
Logo depois, Arilla sentia-se uma princesa de contos de fada! E, ao vestir o modelo esvoaante de Liza, teve certeza disso.
Estava bem diferente daquela menina interiorana de cabelos malcuidados e vestidos de algodo barato de Little Marchwood. Agora era s charme e elegncia!
O vestido de gaze realava a beleza de suas formas esbeltas e mostrava seu colo delicado, num decote audacioso em desacordo com seus hbitos provincianos.
A imagem refletida no espelho do quarto era to maravilhosa e irreal que a fez temer que se desfizesse na nebulosidade de um sonho.
Mas, ao descer, os espelhos do salo confirmaram sua beleza, enriquecida por uma atitude e um porte de rainha.
Apesar da temperatura agradvel da tarde, a noite estava fria, e a lareira fora acesa. Em p, na frente do fogo, Arilla ouviu a porta se abrir. Um arrepio a fez
estremecer de alegria. Harry devia ter chegado.
A empregada anunciou:
- Lorde Rochfield, senhora.
Um homem distinto e belo adentrou a sala, para surpresa de Arilla.
"Harry deve t-lo convidado para jantar", pensou ela.
Mas, quando ele a olhou com o mesmo espanto que seus olhos mostravam, percebeu que se enganara.
- Boa-noite.  amiga de Mimi?
- Mimi? - ela perguntou, em dvida. Achou que ele esperava encontrar a dona da casa e foi logo dizendo:
- Estou morando aqui e... no h mais ningum alm das empregadas.
- Mimi viajou?  estranho. Sabia que eu viria esta noite. Deixou voc para me consolar, no foi?
Arilla ficou perplexa. Antes que pudesse retrucar, ele prosseguiu:
- Que amor! No sei como no notei voc antes.
Ele a media com um olhar atrevido, fazendo-a sentir-se desconfortvel. Sabia que ali, em frente ao fogo, suas vestes deviam estar transparentes e seu decote, perturbador.
- Sinto muito que o senhor esteja desapontado por no. . . encontrar a dona da casa.
- De maneira nenhuma! No estou desapontado. Voc  muito mais atraente do que ela.  fascinante, ... muitas coisas que lhe direi, mais tarde, depois de nosso jantar.
O lorde deu um passo  frente e Arilla, aterrorizada, recuou com medo de que ele a tocasse.
- Vamos jantar aqui mesmo ou quer sair?
- Eu. . . eu preciso explicar - ela falou, desamparada, comeando a tossir.
- No, no quero explicaes; eu a quero o mais rapidamente... na cama. - E ia avanar para ela quando uma voz metlica e firme anunciou:
- O sr. Vernon, senhora.
Lorde Rochfield virou-se contrariado mas, controlando-se, exclamou:
- Harry Vernon! Que diabo voc est fazendo aqui?
- Devolvo-lhe a pergunta - disse Harry, de mau humor.
- Ainda bem que Mimi deixou uma substituta.. . Esta deusa encantadora.
Nesse momento Harry j tinha alcanado Arilla que, amedrontada, agarrou-se ao brao dele.
- Vossa Graa talvez no saiba que Mimi foi a Paris, e minha prima, lady Lindsey, alugou esta casa de Barlow, na ausncia dela.
Lorde Rochfield olhou desconfiado para Arilla, achando que estivesse sendo ludibriado. Todavia, ao perceber o pavor estampado no semblante da jovem, convenceu-se.
- ... parece que houve um engano.
- No foi culpa sua. Mimi devia ter avisado que deixaria a Inglaterra por algum tempo - disse Harry, com firmeza. - Minha prima, milorde, levava uma vida serena
no campo e chegou recentemente a Londres. Espero que no a desaponte, pois Sua Graa  o primeiro representante da sociedade londrina a ser-lhe apresentado.
- Uma situao assaz privilegiada! - exclamou o lorde.
- Vou servir um drinque. Deve haver champanhe por aqui. - Harry atravessou o salo, afastando-se.
- Espero que me desculpe se a ofendi antes de conhec-la.
- Oh, sim. Eu apenas fiquei confusa porque nem sabia o nome da senhora que mora aqui.
Lorde Rochfield tossiu e falou com voz acariciante:
- Gostaria de lev-la para dar uma volta de carruagem pelo parque. - Sorriu e achou melhor arriscar outro convite: - Talvez vocs dois concordem em jantar comigo
uma noite dessas?
- Ser um prazer!
Harry j voltava com duas taas de champanhe, que entregou a ambos, retornando ao bufet para servir-se.
- No h necessidade de desejar sucesso a voc disse o lorde, levantando a taa para Arilla - porque, obviamente, o ter, e esmagador! Espero, isso sim, que no
esquea seu primeiro contato aqui em Londres. fazendo-me seu amigo.
- O senhor . muito amvel.
E as duas taas tilintaram ao tocarem-se delicadamente.
S depois de meia hora, com visvel relutncia, lorde
Rochfield despediu-se.
Arilla achou que ele esperava um convite para jantar, mas no caberia a ela faz-lo. Assim que a carruagem distanciou-se, comentou:
- Que sorte voc ter chegado, Harry. Lorde Rochfield comeou a falar de um modo to estranho!
- Eu sabia.
- Mas ele se desculpou, depois. Notou como queria ficar para jantar?
- Sim. Mas no  pessoa indicada para se envolver com voc. Se bem que...  prefervel t-lo como amigo do que como inimigo.
- Por que no posso envolver-me com ele?
- Muito simples: nunca se casaria com voc.
- No? E se me conhecesse melhor?
- Ele  faladssimo por seus casos amorosos, que nunca o levaro a um outro desastroso casamento.
- Ah! Ento j foi casado?
-  evidente. com essa idade! E foi casado com uma mulher encantadora, filha do duque de Doncaster mas a fez sofrer muito.
- O que ele fazia?
- Tinha muitas amantes, divertia-se com coristas enfim, quase matou a esposa de desgosto. Ela morreu
h cinco anos, mas, garanto, ele no vai se amarrar outra vez. J tem dois filhos para herdarem seu ttulo e uma imensa fortuna. Ele acha a vida de bomio mais divertida
e interessante do que a de um esposo dedicado.
- Esse homem  horrvel. - concluiu Arilla, com ingenuidade.
- Por isso deve mant-lo a distncia.
- Mas voc foi gentil com ele.
- Para evitar que crie problemas.
- Como?
Harry sacudiu os ombros, descontente.
- Chega de falar nele. Estamos perdendo nosso tempo.
- Concordo. E, francamente, nunca mais quero encontrar esse monstro - ela disse em voz fraca. Lembrava-se da maneira vulgar e atrevida com que ele a fitara e das
palavras estranhas que lhe tinha dirigido.
- Ento esquea-o. Se um dia a convidar para sair, apenas negue, ou melhor, eu a orientarei como fazer.
- J me convidou para passear no parque e quer que jantemos qualquer noite com ele.
Harry soltou uma risada e disse:
- Ele estava querendo "emendar o soneto". Pois tomou-a por uma.
Hesitou mas Arilla j completava:
- Substituta de Mimi. Sei l o que isso possa significar.
- Que lorde Rochfield v para o inferno com sua impertinncia. Devia ter imaginado que voc era uma moa de famlia.
- Antes de voc chegar pensou que eu fosse uma. empregada?
Harry pigarreou, nervoso e ao mesmo tempo encantado com a inocncia da prima. " Isso no estava no programa. Preciso avisar a
moa que atende  porta para ter mais cuidado e receber s pessoas previamente recomendadas.
- Talvez ela tenha pensado que ele era seu convidado.
- ... talvez. Mas no deve acontecer de novo.
A seguir os dois foram jantar. Harry se mostrou alegre e carinhoso, parecendo querer compensar o aborrecimento causado por lorde Rochfield. Mas Arilla no mais pensava
no incidente, encantada que estava com a companhia sempre to agradvel do primo.
Quando terminaram de jantar, Harry disse com ar protetor:
- vou mand-la para a cama cedo porque amanh temos muito o que fazer.  noite, quero voc na melhor das formas para uma entrada triunfal na sociedade mais sofisticada
da Inglaterra. - Deteve-se por um instante e prosseguiu: -  muito importante a condessa de Jersey aceitar voc. Por isso fiquei preocupado com o lorde. Ele poder
fazer algum comentrio desagradvel a seu respeito. pelo fato de morar sozinha, sem uma dama de companhia.
- Isso  mau?
- Para pessoas tradicionais, apegadas a convencionalismos...  um escndalo! Mas. todos sabem que sou seu primo e uma espcie de tutor, o que atenua a situao.
Alm disso, voc mora em uma boa rea desta cidade e tambm est rodeada de criados. - Brincou.
- Ningum vai lhe atirar pedras, espero.
- Se fosse para ter uma dama de companhia, preferia ser uma debutante.
- E no conheceria nem a metade das pessoas importantes que, como viva rica, vai conhecer.
- No se interessam por mocinhas?
Elas causam problemas para a maioria dos ho mens e, de um modo geral, so desinteressantes. inexperientes. - Meio sem jeito, Harry aconselhou: Tome cuidado com homens
do tipo de lorde Rochfield!
Cortejam as mulheres por outras razes... nunca para oferecer uma aliana de casamento.
- Que outras razes?
Harry entrou em conflito: deveria ou no dizer a verdade? No queria ferir os sentimentos de Arilla. Ademais, sabia que sua inocncia e aura de pureza a faziam ainda
mais atraente e a protegiam melhor do que ele mesmo a poderia proteger.
Ao mesmo tempo, pensou: "Ela est to bela e sedutora nesse vestido de gaze que entendo por que lorde Rochfield relutou tanto para sair". Temia pelo futuro dela,
pensando nos inmeros Rochfield espalhados por esse mundo afora.
Harry ficou carrancudo, e Arilla o interrogou, aflita:
- Voc est zangado, Harry? Falei alguma bobagem?
- No, claro que no. Nossa corrida j comeou. V para a cama convencida de que teve um bom incio, minha linda priminha. - E acrescentou, feliz: - J ultrapassou
a primeira cancela, agora as outras sero mais fceis.
Arilla sorriu de modo encantador.
- O primeiro obstculo a ser vencido ser a condessa de Jersey - lembrou. - Por enquanto s pulei um perigoso fosso: lorde Rochfield.
- H muitos outros obstculos, cuidado!
- Mas eu me agarrei em voc, Harry. Vai ser empolgante!
- Vai mesmo, Arilla, e... haja o que houver, no desistiremos de correr atrs de nossa boa sorte!
CAPITULO iii
Ao entrar no magnfico salo de recepes da condessa de Jersey, Arilla desejava ardentemente que a me a estivesse vendo. Havia lustres de cristal da Bomia, moblia
francesa, tapetes Aubusson, e o teto era lavrado a ouro.
Quando Harry chegara a Islington para apanh-la, ela procurava aprovao para sua aparncia no olhar dele.
O espelho de seu quarto lhe mostrara a imagem de uma boneca, criada por Liza e Harry, e no a sua.
Seu vestido de renda, cheio de flores, fitas e babados, longe de ser por demais enfeitado, lembrava em leveza e nuances a chegada da primavera. Era a prpria Persfone,
deixando o Hades para se oferecer  luz e ao calor do sol.
Contudo, ao cruzar a sala em direo ao primo, um tremor percorrera-lhe o corpo, receosa de que ele no a achasse bela. com ansiedade, perguntara:
- Que tal?
- Liza trabalhou muito bem - afirmara ele. E colocara-lhe a estola sobre os ombros desnudados porque uma leve brisa se fazia sentir l fora.
Uma confortvel e luxuosa carruagem os esperava. No era um faetonte e devia ter sido emprestada, como sempre.
Sem nada dizer, Arilla lamentou, mais uma vez, a situao de dependncia de Harry, apesar de sab-lo muito querido entre os ricos amigos. No descartou, todavia,
a possibilidade de alguma vez ele ter sido objeto
de chacota por estar em inferioridade econmica. E sofreu com isso, como ele prprio teria sofrido.
Arilla foi tomada de pnico ao se aproximar da manso.
"E se estivermos cometendo um grave erro com toda essa encenao?", questionou-se.
Sua grande preocupao era no prejudicar os bons relacionamentos de Harry. Lembrava-se de como ele a prevenira sobre o papel importante da condessa em seu meio
social.
Contudo, Harry no entrara em detalhes a respeito do que ela representava para o prncipe regente. Tivera medo de chocar Arilla, que jamais entenderia como Frances
Jersey destrura a felicidade entre o ento prncipe de Gales e a sra. Fitzherbert.
Me de dois filhos e sete filhas, dos quais alguns a haviam presenteado com netos, a condessa era nove anos mais velha do que o prncipe, porm dona de um charme
maduro e marcante, aliado a uma incrvel formosura.
Harry lembrava-se de como o pai e seus contemporneos se referiam a ela como algum que transpirava malcia, encanto e seduo. Tambm comentavam a respeito como
sendo uma mulher perversa e inescrupulosa na conquista de suas ambies.
Certa ocasio, o velho pai observara:
"O prncipe no poderia deixar de cair nas malhas dessa infernal Jezebel. Ele estava ciente de toda a crueldade dela, mas os artifcios femininos que ela usou eram
de tal forma significantes que lhe foram fatais".
E o pai continuara em tom amargo:
"Na verdade, o prncipe regente queria ambas as mulheres. No lhe foi fcil viver sem a sua Fitzherbert. Mas, finalmente, com uma frrea perseverana, a condessa
de Jersey venceu".
Era evidente que, depois de ouvir tudo isso sobre a condessa, Harry quisesse conhec-la. Por isso, ao voltar
da guerra e estando em Londres, ele a procurou. Encontrou-a velha, mas ainda bonita e sensual.
E Harry, atraente, de personalidade forte e muito boas maneiras, advindas de sua origem nobre, tornou-se o encanto da velha senhora, que o impulsionou s alturas
da sociedade inglesa.
Em troca, ela esperava que ele estivesse sempre disposto a colorir suas reunies com seu encanto e inteligncia brilhante. Chegava mesmo a sentir cime dele, quando
requisitado pelo prncipe para outras atividades sociais que no as suas.
Mais tarde, com medo de perder prestgio, aconselhou-o a atender Sua Alteza Real, sem deixar de preveni-lo porm:
"O prncipe  muito interesseiro. adora bajulao. Quando menos esperar, se descartar de voc. E se voc fosse rico... o faria pagar pelo privilgio de t-lo como
amigo! "
Harry rira gostosamente na ocasio. A mordacidade da condessa o divertia muito.
Agora, ao levar Arilla para conhec-la, sabia estar usando mais da intuio do que da lgica.
A velhice tornava certas pessoas ms e invejosas, e a prima poderia vir a ser uma vtima da condessa. com sua beleza inegvel, Arilla seria invejada at por criaturas
jovens, quanto mais por essa mulher to atenta  sua progressiva decrepitude. A condessa poderia detest-la e mesmo mago-la, em vez de ir em seu auxlio.
Mas a sorte estava lanada, e ele esperava que, apesar de Arilla portar uma aliana de casamento, seu aspecto quase infantil despertasse a benevolente proteo da
velha. Mas no transmitira sua inquietao  prima para no deix-la nervosa, roubando-lhe a espontaneidade.
Mesmo de longe, Arilla notou os vestgios de beleza no rosto da condessa, mas achou-a mais velha do que supunha.
Depois de serem anunciados, eles se dirigiram at a antiga bergre, onde a anfitri se encontrava, como se estivesse num trono, rodeada por cavalheiros atentos e
distintos, carentes de sua considerao.
Quando Harry se aproximou, ela ofereceu-lhe a mo para ser beijada.
- Voc est mais lindo do que nunca, Harry! Como poderia negar um pedido seu? Onde est sua prima? Se  isso o que realmente ela !
- Claro que  minha prima! Jamais mentiria a Vossa Senhoria.
- Voc  capaz de tudo para atingir seus objetivos, Harry - retrucou ela, com sabedoria. - Vamos, mostre-me a jovem.
- Arilla, venha conhecer a condessa - ele sussurrou, virando-se para trs. A seguir apresentou: - Esta  lady Lindsey, Arilla Lindsey.
Arilla fez uma graciosa reverncia para a condessa de Jersey.
- J sei que voc  viva, Arilla. Eu tambm sou e lhe asseguro que, se as pobres mulheres quiserem ter um mnimo de liberdade em suas vidas, devem providenciar
para nascerem vivas ou rfs.
Risos soaram pela sala em aplauso  espirituosa observao da condessa, que continuou.
- com essa carinha, duvido que continue por muito tempo em seu invejvel "estado de graa", ainda mais, como disse seu primo, sendo beneficiria de to grande fortuna.
Como era de se esperar, Arilla enrubesceu.
- Vossa Senhoria est encabulando minha prima. Mas gostaria de informar que, se ela contrair npcias novamente, ser em razo de suas valiosas qualidades pessoais.
- facilmente reconhecveis - completou a condessa. - E muito breve surgiro dezenas de candidatos.
- com a sua preciosa colaborao - Harry acrescentou com ousadia.
Por um momento reinou um silncio constrangedor; depois a condessa brincou:
- Audacioso como sempre, no , meu rapaz? Por isso, gosto de voc - disse ela. E voltou-se para os convidados: - Quem os senhores sugerem que seja apresentado a
essa jovem e charmosa viva?
Todos comearam a falar ao mesmo tempo, para total embarao de Arilla, que se aproximou mais de Harry, pedindo guarida. Ele entendeu seu gesto e deu-lhe um sorriso
tranquilizador.
Nesse instante alguns retardatrios adentraram o salo. Harry, aproveitando a distrao da condessa, sussurrou ao ouvido da prima:
- No se preocupe. J foi bem-aceita. Agora o resto  fcil!
Harry tinha razo. Seguiram-se inmeras apresentaes a cavalheiros bem-apessoados, todavia, sempre acompanhadas das mordazes observaes da condessa.
Quando conversava com um par da Cmara dos Lordes, que falava com orgulho sobre um discurso que l fizera, Arilla, para seu desalento, ouviu o mordomo anunciar:
- Lorde Rochfield, milady.
Ela notou logo a satisfao da condessa e observou o olhar soberano que o lorde lanou pelo salo. Virou o rosto, mas ele imediatamente a reconheceu. Prova disso
foi o comentrio que a condessa de Jersey fez, com voz maliciosa:
- J conhece lorde Rochfield... no, Arilla? Ele insiste em uma apresentao formal, por razes desconhecidas para mim. Portanto eu os apresento: lady Lindsey, lorde
Rochfield.
Enquanto Arilla o saudava friamente, ele explicava:
- Quero iniciar um relacionamento sem equvocos.
Ao encontrar os mesmos olhos escuros e atrevidos, ela se certificou mais uma vez de que o detestava. Aquele homem, contra o qual Harry j a havia prevenido, a amedrontava.
E, quando ele fez meno de se aproximar mais, ela se desculpou:
- com licena, preciso ver uma pessoa...
Antes que lorde Rochfield pudesse retrucar, Arilla desapareceu entre os grupos de convivas. Encontrou Harry em animada conversa com um velho e conceituado estadista,
que discretamente se afastou ante o surgimento inesperado dela.
- Lorde Rochfield chegou, Harry - ela disse baixinho.
- Eu vi. Seja gentil, mas evite-o, o mais que puder. No o contrarie, para no criar problemas.
Arilla ia dizer-lhe que no sabia como seguir instruo to contraditria quando o lorde os alcanou, falando em tom cordial:
- Boa-noite, Vernon. Pensei que o encontraria no clube. Pretendia convenc-lo a levar essa jovem fascinante para jantar em minha casa. - Sorriu para Arilla e prosseguiu:
- vou dar um jantar em sua honra, com a presena de Sua Alteza Real, a quem devo no s um, mas muitos antares!
- Isso se aplicaria a muitos de ns. O que nos consola  pensar que o prncipe gosta mesmo  de ser o convidado principal de sua prpria mesa - disse Harry rindo.
- Talvez. Eu j prefiro ser o anfitrio de sua adorvel parente. Quando me daro esse prazer?
O desejo de Arilla era que esse jantar nunca se realizasse. No entanto, ele lhe daria uma tima oportunidade para encontrar personalidades interessantes e iniciar
relacionamentos de futuro. Harry tambm devia ser da mesma opinio, tanto que logo se pronunciou.
- Muita gentileza sua, milorde. Lady Lindsey e eu nos sentiramos honrados com sua hospitalidade. Mas. estamos com nossa agenda lotada. Deixe-me ver... na prxima
quarta-feira?
- Perfeito! - exclamou lorde Rochfield. - S espero que lady Lindsey se divirta porque... quanto aos outros... quem no se compraz ante to encantadora criatura?
"Muito formais para serem sinceras essas palavras", pensou Arilla.
Notou que os olhos do lorde a examinavam com a mesma avidez da noite anterior. E, outra vez, sentiu-se desconfortvel, achando que seu vestido era um pouco transparente
e exagerado no decote.
Apesar de ingnua, Arilla percebia que aquela no era a maneira de um cavalheiro olhar para uma dama de respeito.
"Ele  odioso e est se comportando de um modo abominvel", considerou.
Nesse instante a condessa tocou Harry com seu leque para dizer-lhe:
- A princesa de Lieven acaba de chegar. Veja se voc a entretm a fim de paralisar sua lngua viperina.
Atnita, Arilla ouviu a risada dele e viu-o apressar-se obedientemente em direo  princesa, esposa do embaixador russo. Quis segui-lo, mas lorde Rochfield levou-a
Para o canto extremo do salo, onde havia um sof desocupado.
- Agora me fale de voc. Acredito que no campo, onde esteve escondida, sua beleza foi decantada apenas Pelos pssaros e pela brisa! No deixa de ser uma pena.
-  um poeta, milorde - disse ela em tom de ironia.
- S quando estou com voc. Quando a encontrei ontem, pensei estar tendo uma viso.
Contrariada, Arilla virou o rosto, mas ele continuou:
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- Ser que ainda no me desculpou por t-la confundido com uma das meninas da Mimi? As circunstncias me levaram a isso!
- Continuo sem entender. No conheo essa Mimi.
- Ento vamos esquecer a noite de ontem, com exceo do impacto que voc me causou. Sem mais delongas, minha linda, estou perdidamente apaixonado
por voc.
- No  possvel, milorde! - retrucou ela. - E no devia falar assim... Em to pouco tempo de conhecimento!
Lorde Rochfield riu.
- No sabe que tempo no tem nada a ver com emoes? O amor nasce de repente, como uma fasca
em cu tempestuoso...
- S posso duvidar de um sentimento com bases na
fragilidade de um mero encontro!
As palavras de Arilla eram frias e duras e seus olhos moviam-se, aflitos,  procura de Harry.
com surpresa e desagrado, sentiu as mos do lorde segur-la pelos cotovelos e ouviu a voz clara e firme
dizer:
- Oua bem, sou um homem obstinado. Quero voc
e vou t-la s para mim... - E, fitando-a com ternura,
continuou: - Tomarei parte no jogo, seja l qual for,
mas ao final a terei em meus braos.
Arilla no pde evitar a vaidade motivada por tal
declarao, jamais ouvida da boca de algum homem.
Instintivamente, olhou-o, impressionando-se com a chama reluzente que brilhava naqueles olhos escuros.
Apavorou-se quando sentiu mos poderosas agarrarem-na, puxando-a para junto de um corpo fremente. Teve mpetos de fugir, mas seu bem treinado autocontrole de menina
inglesa a fez raciocinar e optar pela
diplomacia.
- Cuidado, milorde, est quebrando o mais primrio
dos princpios da moral vitoriana. Sinto dizer que suas palavras no me interessaram, e  com todo o respeito que peo permisso para me retirar.
Levantou-se com firmeza e afastou-se dele devagar. Lorde Rochfield no a deteve, para evitar escndalo.
 medida que ela caminhava, ouvia-lhe a risada desdenhosa e artificial.
Mais uma vez aproximou-se de Harry, que se ocupava com a princesa. Ele ia apresent-la  princesa, quando um senhor atarracado, que estava ao lado, tomou a dama
pelo brao, e ambos se afastaram falando em russo.
- O que houve? - Harry perguntou, contrafeito.
- Lorde Rochfield est sendo inconveniente. Vamos embora.
- Pelo amor de Deus! A ceia nem foi servida. e seria um insulto sairmos antes da meia-noite. Ser que no sabe intimidar lorde Rochfield? Tenha pacincia, Arilla,
voc parece uma criana - reclamou Harry com voz irritada.
- vou tentar... no  fcil.
- Nada  fcil... mas faz parte de nossa empreitada - ele retorquiu. - Venha c, vou apresent-la a um grande amigo meu.
Dirigiram-se a um jovem que atravessava o salo.
- Charles, vem c, h algum que quero que conhea.
- Ol, Harry, sabia que iria encontr-lo aqui. Ao ver Arilla, ficou vivamente alvoroado.
- Sir Charles Ledger, minha prima lady Lindsey
- apresentou Harry com voz solene.
- Nunca soube que voc tivesse uma prima assim encantadora, Harry! Todos os seus parentes que conheo so exatamente como os meus: maantes e antipticos. Mas. como
dizia meu pai, "mesmo no pntano pode aparecer uma flor".
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Arilla achou graa no exagero da observao e deu uma risada cascateante.
- Paris deixou-o afiado, hem, menino! Nunca o vi to loquaz! Charles esteve em Paris, sob os auspcios da Secretaria dos Negcios do Exterior - Harry explicou
- e, como se v, aproveitou bem a viagem.
- Adoraria conhecer Paris, agora que acabou a guerra - disse Arilla. - Tantos lugares que no passavam de simples nomes para ns tornaram-se propcios a uma visita.
- Harry e eu conhecemos grande parte do continente durante a guerra. Mas, graas a Deus, as coisas esto muito diferentes agora.
- . ouvi falar. Precisaria examinar in loco disse Harry, dando um profundo suspiro.
"Se eu fosse rica. faria tudo por Harry", pensou Arilla. "Parece incrvel que ele seja to pobre... enquanto seus amigos tm tanto dinheiro para esbanjar "
E realmente no havia nenhum sinal de economia naquela noite. Sentaram-se para uma ceia magnfica, onde todo o requinte da arte de comer e de beber havia sido empregado.
Excelentes vinhos foram servidos, sempre na temperatura ideal: suficientemente frios para parecerem aveludados na lngua, mas nunca to gelados que perdessem o aroma
e o sabor.
Os dois amigos no pouparam elogios.
- Ao que parece, a condessa quer sobrepujar as reunies de Carlton House ou do Pavilho Real, em Brighton - comentou Charles. - Alis,  o que aspiram todos esses
gr-finos depois da reforma feita no bar e na adega do prncipe regente. Sua Alteza Real conseguiu criar uma verdadeira gruta de Aladim!
- Gostei da comparao! - exclamou Harry. J imaginou o que deve ter custado ao tesouro real?
- E no sei se valeu a pena. Eu no gostei... Toda
aquela decorao oriental no faz o meu gnero. Devo admitir que  tudo muito luxuoso, e a atmosfera  bem prpria do gosto do prncipe.
- Deve ser - Harry afirmou, lamentando no ter estado l ainda.
Arilla sonhava ter a oportunidade de algum dia visitar Carlton House e o Pavilho Real, mas lembrou-se, com tristeza, do fraco que o prncipe tinha por mulheres
maduras, se  que os mexericos eram verdadeiros.. .
Quando voltaram ao salo, aps a ceia, a orquestra de cordas tocava uma pea romntica, enchendo o salo de poesia e sensibilidade.
Harry e Charles entretinham-se falando sobre as corridas a se realizarem no dia seguinte.
Atrada por um quadro de Rubens, Arilla afastou-se um pouco. E outra vez soou ao seu ouvido a desagradvel voz de lorde Rochfield:
- Voc  muito mais bonita do que qualquer obra de arte.
Ela notara que, durante a ceia, o lorde sentara-se ao lado da anfitri, provando sua grande respeitabilidade, e como temesse desagradar a condessa, aceitou com pacincia
o cumprimento dele.
- Por certo Vossa Senhoria conhece bem a arte da pintura. Ser que poderia me instruir sobre essas valiosas obras? - disse com ingenuidade e mostrou a fileira de
quadros expostos ao longo das paredes.
- Prefiro olhar para voc, mas. . . vou lhe mostrar um quadro que no h quem no admire.  um Poussim.
Levou-a para o fundo do salo, onde uma esplndida tela despertou, em Arilla, a ambio de posse, que no passou despercebida ao lorde. Mais do que depressa, ele
informou-lhe:
- Vou presente-la com um quadro desse mestre. Ou... prefere diamantes?
Arilla retesou-se. Sabia, por intuio, que no seria
prprio um homem oferecer-lhe jias... Sentiu-se insultada e respondeu ironizando:
- Nem uma coisa, nem outra... Prefiro cavalos!
- Ento vai t-los.
Ela deu um gritinho de susto.
- Eu estou brincando!  evidente que no posso receber presentes de Vossa Senhoria, seja l o que for.
- E por que no? Voc  muito inocente. Duvido que nesta sala haja alguma mulher que j no tenha sido generosamente presenteada pelo sexo oposto.
- Talvez, milorde. Na minha cidadezinha, tnhamos outros valores. Cresci sabendo que presentes... s se recebe de marido.
Lorde Rochfield riu-se.
- O que voc me diz  muito claro: quer alguma coisa muito mais valiosa para uma mulher como voc do que quadros, brilhantes e cavalos. uma aliana de casamento.
- Nem pensei nisso! Mas. talvez tenha razo. Arilla sabia que ele no era do tipo de se casar. Harry j a havia prevenido. Assim como o prncipe regente, o lorde
jamais chegaria ao casamento. Ambos escandalizavam toda a sociedade com suas aventuras amorosas. No buscavam as mulheres para a satisfao de um ideal; queriam-nas
apenas para a cama. Sua me tambm se chocaria, se conhecesse o lorde.
Ao chegar a essa concluso, sentiu-se bem esperta para uma moa simples do interior.
Pondo um fim ao dilogo, voltou a contemplar Poussin. Nenhuma outra pintura a encantaria tanto!
Em um sussurro, ouviu a voz de lorde Rochfield:
- Quer se casar outra vez, no ? Poderemos pensar nisso, mais tarde.
Arilla achou que no tinha ouvido bem e, quando se voltou, deparou-se com uma expresso estranha naqueles olhos escuros. No entendeu mas se amedrontou bastante.
Ele se aproximou ainda mais para dizer:
Desde a noite passada voc no saiu de meu pensamento. No vejo mais nada, alm da beleza de seus olhos e do tom dourado de seus cabelos.
Havia algo de esquisito naquela voz. Ela teve medo de fit-lo. - de ser hipnotizada e impulsionada para aqueles braos suplicantes. Mas era muito tarde para se arrepender
de t-lo acompanhado ao fundo do salo.
- Voc j foi casada, minha querida. Por que est to nervosa e em dvida? Tinha medo de seu marido?
- No quero falar nisso.
- Se ele no tivesse posto essa aliana em seu dedo, no acreditaria que algum homem a tivesse possudo ou mesmo. beijado. H uma aura de pureza em voc, e isso
me enlouquece e me faz prisioneiro de seus encantos.
Havia paixo nessas palavras, e Arilla amedrontou-se. Olhou para os convidados em busca de Harry, suspirando aliviada quando o viu caminhando para ela.
Ao alcan-la, ele advertiu:
- Se voc pretende montar amanh,  conveniente irmos embora.
- Tem razo - ela apressou-se a dizer. - Tambm estou muito cansada.
- Na verdade. est querendo fugir - lorde Rochfield emendou.
- Fugir? - exclamou Harry. - Por acaso esteve aborrecendo minha priminha, lorde Rochfield? Ela veio do campo e no est habituada com dom-juans da cidade.
- Logo se v. Mas lhe garanto que no tive inteno de mago-la ou aborrec-la.
- Espero que no - Harry declarou com secura e firmeza.
- Pode confiar em mim. vou tomar a liberdade de visitar lady Lindsey, amanh.
- No sei se... vou poder.
Arilla no completou a frase porque Harry j dizia:
- Estamos muito ocupados. No temos tempo para receb-lo.
- Est me provocando, ou prefere fazer uma aposta, sr. Vernon?
- No tenho dinheiro para apostas. Acho que um desafio fica mais barato.
Os olhares dos dois homens se cruzaram, revelando uma rivalidade mortal.
Arilla interrompeu graciosamente esse preldio de briga para despedir-se, dizendo:
- Obrigada pela aula de arte que o senhor me deu. Estou me sentindo esgotada. Tambm, esta noite foi muito emocionante para mim.
Lorde Rochfield tomou-lhe a mo, roando-a ternamente com os lbios.
Arilla teve a sensao de estar sendo tocada por um rptil e sentiu vontade de gritar, mas, com um sorriso de atriz, agradeceu:
- Boa-noite, milorde, e mais uma vez, muito obrigada.
Harry e Arilla despediram-se da condessa e saram. S depois que a carruagem deixou os pajens com seus archotes para trs, ele observou:
- Agora me diga o que aquele imbecil disse para voc ter ficado to perturbada.
CAPITULO IV
Propositadamente Arilla escolheu o vestido de que menos gostava, na esperana de se tornar menos atraente a lorde Rochfield. At a vspera no se lembrara do desagradvel
convite para jantarem na companhia dele. Mas, quando ela e Harry se despediram de seus anfitries, depois de uma agradvel reunio, ouvira sua voz impertinente dizendo-lhe:
"Espero v-la amanh  noite, encantadora senhora".
Ao ver seu interlocutor no grupo de pessoas que a rodeavam, respondera com falsa amabilidade: "Sim, estamos ansiosos para visit-lo".
Agora, ao aprontar-se para jantar com lorde Rochfield, sentia-se angustiada, apesar de saber que contaria com a presena de Harry para proteg-la.
Rose, a camareira que a ajudava a vestir-se, terminou de abotoar-lhe o vestido e no se conteve:
- A senhora est linda, milady!
- Obrigada - respondeu Arilla com um sorriso.
Dona Mimi costuma se enfeitar muito mais, no ?
Ela estava plantando verde para colher maduro. At aquele momento o nome de Mimi fora evitado, tanto por Harry como pela criadagem. E, no entanto, tudo no quarto
revelava a presena habitual de uma mulher. Harry dissera que os mveis e os objetos de decorao pertenciam a lorde Barlow, mas havia ali coisas obviamente femininas.
Houve um silncio embaraoso. Depois, um pouco relutante, Rose respondeu:
- , sim, mas...  diferente. - Logo acrescentou:
- Se me permite a pergunta, que jias vai usar, senhora?
Arilla observou a imagem refletida no grande espelho e achou que a falta de jias acentuava a alvura de seu colo. Teve certeza de que mais uma vez o lorde iria faz-la
sentir-se decotada demais.
"Por que Harry no me arranjou algum adereo para usar?", pensou.
Na primeira noite em que saram, ela encontrara sobre uma mesinha da sala um lindo porta-jias.
"Trouxe um complemento muito importante para a toalete de uma viva rica: diamantes", ele dissera.
"Harry! De onde voc pegou isto?", Arilla tinha nas mos um precioso colar de brilhantes. " soberbo! Apesar de ser um pouco espalhafatoso demais. quase vulgar para
o meu gosto."
Arilla compreendia, porm, que seu papel de viva abastada reclamava tais exageros. Rememorou como as mulheres olhavam com ar de cobia para o valioso colar, na
recepo da condessa de Jersey. Depois disso, Harry sempre providenciara jias. Uma das vezes, trouxera um colar de gosto duvidoso, que ele mesmo qualificara ser
de extrema vulgaridade.
"Tire essa coisa horrorosa do pescoo. ", dissera. "No gostei desde o primeiro instante, mas a pronta oferta de minha amiga me obrigou a aceit-lo."
"Que bom voc tambm no ter gostado!", Arilla exclamara aliviada.
Harry, ento, sugerira-lhe que usasse uma fita de veludo e pregasse nela uma orqudea branca, dando assim um toque chique e primaveril. Ficara mais bonito do que
antes, e ela fora sobejamente elogiada; alguns comentrios chegaram aos ouvidos do primo:
"A viva rica  to linda quanto modesta...  digna e discreta em suas atitudes. No se preocupa em exibir suas jias. vou inclu-la em meu crculo de amizades".
Talvez para essa noite ele tambm a quisesse usando apenas flores; por isso Arilla pediu a Rose que procurasse o mais lindo boto de rosa entre os frescos ramalhetes
recm-chegados para a decorao da casa, a fim de coloc-lo em sua gargantilha.
Infelizmente, no gostou do efeito e optou por uma simples fita de veludo cor-de-rosa.
- Est lindo! - aprovou Rose.
- Falta alguma coisa... - Arilla pensou em voz alta.
- Est timo assim e. garanto que o sr. Harry vai gostar.  assim que ns o tratamos aqui - Rose informou, dando uma risadinha.
- Espero que goste - Arilla respondeu. Depois, num impulso, ela perguntou: - Voc disse que chama o sr. Vernon de sr. Harry? Ele vem aqui com frequncia?
- Vem, sim. Dona Mimi  louca por ele, como tambm todas as outras. Mas ele no pode muito. Rose parou de falar de repente, como se percebesse sua indiscrio. Depois
gaguejou: - Mas. Sua Graa, o lorde Barlow,  muito generoso, e todas gostamos de trabalhar para ele.
- Porm ele no mora aqui, mora?
Arilla lembrou-se de que, ao passar por Berkeley Square, Harry lhe mostrara a manso dos Barlow, impressionante pela suntuosidade.
- Oh, no, milady! Sua Graa s vem quando pode. por pouco tempo... H outros cavalheiros! Mas gostamos mesmo  do doutor Harry.
"Qual ser o relacionamento de lorde Barlow e Mimi?", Arilla conjecturou. Perguntara muitas vezes a Harry mas ele se esquivara. Tinha perguntado tambm em que teatro
Mimi trabalhava e nunca recebera resposta concreta: "Ela est trabalhando, no momento, em Paris, com o lorde. Por isso estamos aqui, usando a casa,
as carruagens, os cavalos de Sua Excelncia, sem... gastarmos nada! "
Arilla esboou um sorriso de felicidade por ter deixado tudo nas mos do esperto primo e pensou: "Ele j deve estar chegando". Como seria bom se jantassem sozinhos.
mesmo em casa. Eram to poucos seus momentos a ss com ele.
Apesar de Harry estar sempre presente para opinar sobre sua aparncia, ela o queria a seu lado por mais tempo, uma vez que em sociedade ficavam distanciados, preocupados
apenas com os bons partidos que poderiam aparecer.
Parecia impossvel j ter sido pedida em casamento em to curta permanncia em Londres. A proposta viera de um par do reino, a quem encontrara apenas duas vezes.
Ele havia se sentado a seu lado durante um jantar, ignorando por completo todos os que o rodeavam, a ponto de Arilla ach-lo sem muita fidalguia.
Depois do jantar, danaram. O nobre senhor a convidara para se retirarem a uma sala, contgua ao salo, com o pretexto de admirarem uma pintura. Para surpresa dela,
a sala estava deserta. Ele fechara a porta e dissera:
"Finalmente a consegui s para mim. Gostaria de saber se me dar  honra de ser minha esposa".
Arilla ficara estupefata. Nunca havia pensado que um pedido de casamento pudesse acontecer to rpido e de forma to banal. Por um instante achou que ele estivesse
brincando, mas quando o viu, grave e emocionado, convenceu-se da seriedade da proposta.
"Case-se comigo, por favor. Juro que ser feliz! Poderemos fazer tantas coisas juntos, em minha fazenda..." Tomara-lhe as mos e as cobrira de beijos.
Os lbios frios e sequiosos a deixaram to nauseada que lamentou o fato de no ter calado as luvas, pois assim teria evitado aquele contato desagradvel.
"Desculpe... ", ela comeara a falar, com voz trmula, quando a porta se abriu e um grupo de pessoas invadiu alegremente a sala, dando-lhe oportunidade para escapar
em direo a Harry.
Naquele momento, uma linda mulher no disfarava a atrao que sentia por ele. Sentara-se a seu lado durante o jantar, e, segundo Arilla, parecia enamorada. Sussurrava-lhe
algo ao ouvido e tocava-lhe o brao com a mo ornada por faiscante e valioso anel, revelando claramente seus sentimentos.
Assim que Arilla aproximou-se, Harry dissera com alegria:
"Ah, voc chegou! Queria mesmo apresent-la a uma de minhas melhores amigas, a marquesa de Westbury".
A nobre dama no mostrara entusiasmo e, com cerimnia, moveu a cabea num cumprimento formal. Depois, como se Arilla no existisse, virou-se para Harry e continuou
o assunto:
"No v se esquecer, querido... Ficarei muito zangada se voc no aparecer".
"Jamais se zangaria comigo!", afirmara ele.
A marquesa se afastou. Ento Harry apressara-se em perguntar: "O que houve, Arilla? Est assustada!" "Agora no posso falar. ", dissera ela olhando ao redor.
"Ento vamos danar."
Harry pegou-a pelo brao e a levou at a pista de dana. O som de uma valsa sentimental, recentemente apresentada em Londres pela condessa de Lieven, enchia o salo.
Muitos a achavam imprpria e reprovavam a maneira audaciosa com que os pares costumavam bailar aos acordes dessa recente composio.
Arilla sabia que Harry era um timo danarino. Enquanto danaram, ela contou-lhe, com voz fraca e nervosa, que o duque de Fladbury acabara de lhe pedir em casamento.
Ergueu o rosto  espera de uma resposta, temendo que ele quisesse uma aceitao sua, mas, surpreendentemente, ele soltara um riso franco.
"J esperava por isso."
"Como assim? "
"Ele est  procura de uma mulher rica. Est enterrado at os olhos de dvidas e h dois anos persegue herdeiras de grandes fortunas."
"E... eu fiquei com medo."
"De ter que casar-se com ele? No. No o indicaria  minha pior inimiga! "
Arilla dera um riso sonoro e jovial. De repente a festa tornara-se mgica e animada. As luzes dos candelabros brilhavam mais, e os sons inebriantes da valsa transportavam-na
aos cus.
Finalizando os preparativos para jantar na casa de lorde Rochfield, Arilla pensava em quo maante e cansativo seria o passeio. Consolava-se com a certeza de no
ser assediada com um pedido de casamento.
Rose foi ao guarda-roupa escolher um agasalho que combinasse com o vestido e trouxe um lindo casaco de veludo azul-claro, debruado com plumas. Arilla jogou-o displicentemente
nos ombros e examinou-se ao espelho. Nesse instante, uma batida na porta sobressaltou-a.
- A carruagem chegou, milady - avisou o lacaio.
- O sr. Vernon teve um imprevisto e manda avisar que vai encontrar a senhora em casa de Sua Graa.
Arilla ficou gelada de aflio e quase chorou de desapontamento.
Uma das coisas de que mais gostava eram as idas e vindas das recepes, quando podia conversar a ss com o primo, sem a preocupao de representar o papel de viva
rica e ser simples e natural como sempre fora.
"Qual ser o imprevisto? A marquesa de Westbury ou alguma outra mulher?", perguntou-se.
Harry era um homem atraente, sempre rodeado de mulheres belas e inteligentes, apesar de mais velhas do que ele. Isso s vezes a fazia sentir-se um estorvo na vida
dele.
Desanimada, tomou a carruagem, grande, confortvel e luxuosa. Nunca usara uma igual. Os cavalos eram de raa, e, assim que a portinhola foi fechada, comearam a
andar em passo suave e disciplinado.
O som metlico e ritmado das ferraduras batendo nas pedras cessou e, mais do que nunca, ela quis ter Harry a seu lado. Assim que despediu o cocheiro, arrependeu-se.
Agora nada mais havia a fazer a no ser rezar para que outros convidados j tivessem chegado. Eles evitariam a maneira desagradavelmente ntima e atrevida com que
o lorde costumava receb-la.
Arilla no revelara a Harry seus temores, pois ele a qualificaria de tola e j lhe dissera ser prefervel ter Rochfield como amigo. Tambm no queria instigar o
primo contra o lorde, embora, na verdade, o detestasse apavorando-se com sua presena asquerosa de rptil.
Havia chegado  Manso Rochfield, em Picadilly em menos de vinte minutos. A casa ficava prxima ao recm-construdo palcio do duque de Wellington na esquina do
Hyde Park.
Os duplos e pesados portes de ferro, decorados com herldicos unicrnios, a marca do braso dos Rochfield foram abertos de par em par.
Ela subiu a escadaria exterior, coberta por um tapete vermelho at a porta, onde um mordomo e mais quatro lacaios esperavam  entrada do imenso vestbulo de mrmore.
Um dos criados tomou o agasalho de Arilla, e o mordomo a fez subir por um dos lanos da escada em curva at o primeiro andar. No pararam onde ela supunha ser o
salo de recepo. Continuaram pelo largo corredor que ostentava obras de pintores clebres, iluminadas por pesados candeeiros de bronze.
Em outra circunstncia Arilla teria se interessado por esses quadros e pelas lindas peas de moblia francesa, dispostos ao longo da galeria, mas agora preocupava-se,
achando que ningum havia chegado e que se adiantara demais. Mais uma vez culpou-se por no ter feito a carruagem esperar at que Harry chegasse...
O mordomo abriu uma porta e anunciou:
- Lady Lindsey, milorde.
Entrando na sala, ela sentiu um aperto no corao ao ver uma nica pessoa, em p, prxima  lareira de mrmore ladeada por dois jarres chineses, repletos de lrios
do vale: o anfitrio. Lorde Rochfield no se moveu, esperou que ela fosse ao seu encontro.
Arilla no podia conter o tremor de suas pernas e com dificuldade chegou at ele. Seus olhos, imensos em seu rosto, demonstravam pnico. A voz saiu dbil e trmula:
- Che... cheguei muito cedo, milorde. Meu primo vir mais tarde... atrasou-se.
- Deve ter tido um bom motivo... - comentou, e ela o odiou pela insinuao. - Mas voc est aqui,  o que me interessa...
Lorde Rochfield tomou-lhe a mo e a levou aos lbios, sem pressa, e esse contato provocou-lhe repulsa.
Um pajem entrou com uma bandeja que continha duas taas de champanhe, que ofereceu a ambos; ao pegar a sua, lorde Rochfield falou:
- Hoje preciso fazer um brinde especial porque esta  a primeira vez que voc visita minha casa. Espero que tenha gostado.
- H lindos quadros aqui!
- E muitos deles retratam deusas, mas nenhuma delas  to linda ou atraente quanto voc!
Os olhos escuros e cobiosos cintilaram fitando-lhe o colo, como se ela estivesse decotada demais.
Arilla olhou para a entrada esperando ver Harry ou
outro convidado chegar. A porta se abriu, mas quem entrou foi o mordomo, no para anunciar algum, porm para comunicar:
- O sr. Vernon, milorde, manda apresentar suas desculpas por no poder comparecer esta noite. por motivo de fora maior.
- Obrigado - lorde Rochfield respondeu mais do que depressa.
- O que ser que aconteceu? Como Harry pde faltar a um compromisso assim na ltima hora? - perguntou Arilla, no escondendo seu nervosismo.
Lorde Rochfield lanou-lhe um olhar de homem experiente.
-  muito fcil de se entender. A "fora maior" pode ser o prncipe ou talvez algum mais interessante como... a linda marquesa.
- Mas. que indelicadeza!
- Para mim  um presente dos deuses. Um verdadeiro milagre t-la s para mim!
Arilla percebeu nos olhos do lorde uma centelha de
malcia enquanto um largo sorriso lhe aflorava aos lbios. com timidez, ousou perguntar:
- E os outros convidados da festa?
- No h outros - ele respondeu cinicamente. No poderia permitir nossa ateno desviada para outros convidados.
- Quer. quer dizer. que estamos sozinhos?
- Devo confessar que no via a hora de chegar este momento e. tenho certeza de que voc no vai
me desapontar.
Enquanto pensava no que fazer, Arilla ouviu o criado anunciar o jantar.
Lorde Rochfield ofereceu-lhe o brao, e ela timidamente o acompanhou.
Todos os sales de banquete que conhecera ficavam no andar trreo, por isso ela pensou que se encaminhariam  escada. Contudo, seguiram at o fim do corredor, onde
dois pajens os aguardavam diante de uma porta escancarada.
Passando por ela, Arilla admirou-se com o tamanho reduzido da sala e com a decorao um tanto bizarra, repleta de flores e plantas, o que lhe dava a impresso de
estar em um quiosque de jardim pblico.
Teve vontade de rir vendo-se ali naquele "caramancho", cercada de lrios, em uma companhia pouco conhecida, mas muito desagradvel.
No pde comer quase nada, pois o nervosismo no o permitiu.
Contudo, manteve uma atitude calma porque no queria mostrar-se constrangida diante da criadagem. Permaneceu quieta, pensando num meio de escapar dali. Como se o
anfitrio lesse seus pensamentos, procurou distra-la, falando sem parar de suas propriedades e fazendo comentrios sobre as ltimas reunies a que haviam comparecido.
Arilla no o fitava, com medo de encontrar o atrevimento e a sensualidade sempre presentes naquele olhar.
O jantar foi mais simples do que ela esperava, mas tudo que lambiscou estava delicioso. Quando terminaram, lorde Rochfield sugeriu:
- Vamos sentar no sof; ficar mais  vontade para provar um licor muito especial enquanto tomo meu brandy.
- No quero mais nada - retrucou ela. No lhe passara despercebida a presteza dos criados em manter seu copo sempre cheio, apesar de ela s ter bebericado, procurando
se conservar alerta e poder escapar sem alarde.
Os empregados j tiravam a mesa, e ela achou que era o momento de se despedir. Ento arriscou dizer:
- Como sua festa no se realizou, o mais correto a fazer ... me retirar.
- De maneira alguma, mesmo porque minha carruagem que a trouxe no est disponvel.
- Sua carruagem?
- Isso mesmo! Queria ter certeza de sua vinda. Arilla estranhou que Harry tivesse consentido que o
lorde a buscasse, mas se calou.
Apesar de sua recusa, serviram-lhe licor. "Deve ser muito forte", ela pensou. Ignorou-o e sentou-se no extremo oposto ao lorde, tentando persuadi-lo a deix-la sair.
- Milorde - disse forando um tom de meiguice em sua voz -, tenho uma boa reputao a guardar... O que diro ao saber... que estive aqui sozinha? Permita-me ir embora.
- O que acontecer entre ns ser segredo... a no ser que voc o revele. o que  impossvel. - Ele achegou-se bem perto dela e continuou, sussurrando: Voc no imagina
como eu antegozei este momento... No percebeu como enfeitei esta sala com alvas flores, em tributo  sua beleza?
- ... elas so lindas! Gosto muito de lrios disse Arilla, desanimada.
-  estranho como eu os associo a voc, mesmo sendo uma mulher casada. Mas... h alguma coisa de inocente e intocvel em voc. Tenho certeza de que, se eu no for
o primeiro homem a toc-la, serei aquele que despertar seus sentidos para os prazeres do amor.
Se uma serpente aparecesse rastejando na sala, Arilla no sentiria tanto asco quanto estava sentindo diante de lorde Rochfield.
Apertou os lbios ressequidos, umedeceu-os e empinou o queixo para dizer, ofendida:
- Eu no permito que me fale assim. Vossa Senhoria exorbitou. Quero ir embora.
Ele deu uma gargalhada gostosa.
- Voc  um amor! Sei que est assustada, mas no nego:  muito corajosa! - Havia mel em sua voz quando ele continuou: - Voc gostaria de saber que h muito tempo
uma mulher no me atrai tanto? Que, depois de eu lhe ensinar as primeiras lies do desejo, voc se capacitar de que vamos nos dar muito bem?
Lorde Rochfield fez meno de toc-la enquanto falava, mas ela deu um pulo para trs como uma cora assustada. Teria alcanado a porta se ele no tivesse impedido,
segurando-a pelos pulsos.
- No to depressa, minha querida. Preciso mostrar uma coisa que revelar melhor do que palavras a minha pretenso.
- Deixe-me ir - ela gemeu -, por favor, deixe-me ir.
Segurando-a ainda pelos pulsos, ele caminhou em direo a uma porta semi-aberta que, obviamente, dava para um quarto.
Uma fragrncia de lrios inundou o ambiente e, atravs das lgrimas, ela vislumbrou um enorme leito coberto por um dossel de cetim cor de vinho. Os lenis dobrados
mostravam bordas de finssima renda de Veneza.
- Agora voc sabe o que eu quero e o que pretendo ter! Voc  minha, meu amor. toda minha. - E abraou-a pelos ombros com sofreguido.
Foi quando Arilla certificou-se de ter cado em uma armadilha. com um grito de horror, comeou a se debater entre os braos do lorde, que parecia esperar por essa
oportunidade para agarr-la de vez, comprimindo-a de encontro ao seu corpo viril.
Era como se uma cinta de ao a cingisse dolorosamente. S lhe restava gritar e. gritar muito.
Harry chegou  apertada entrada de seu alojamento, na rua Half Moon, e subiu os trs lanos da escada, at o ltimo andar.
As melhores hospedarias e aposentos para homens modernos, frequentadores de St. James, ficavam nessa rua e Harry sabia disso, como tambm sabia serem bastante caros
para ele.
Contudo, Watkins, um subalterno seu da poca do regimento de cavalaria, lhe arranjara essa gua-furtada, de nmero 19, na rua Half Moon. Era usada como depsito
de malas e mveis velhos por um dos donos daqueles pequenos estabelecimentos.
Fora Watkins quem convencera o proprietrio desses quartinhos a alug-los por uma ninharia, e Harry ocupava dois cmodos. O bom amigo era quem cuidava desses aposentos,
como tambm da roupa de Harry, considerado o mais elegante cavalheiro do beau monde londrino.
- No  possvel, Watkins - Harry dissera ao deixar o regimento. - Sei que seu maior desejo  ser meu valete, mas. no posso pagar. Infelizmente essa  a verdade.
- No tem importncia... capito.
- Eu gostaria muito, porm no  possvel mesmo.
- Talvez seja. talvez no.
Watkins achara um trabalho nas estrebarias do mercado, prximo ao alojamento de Harry. Costumava acord-lo e servir-lhe o caf da manh, alm de ajud-lo a vestir-se
para as recepes da noite. Se Harry tinha algum dinheiro, coisa rara, dava ao amigo; caso contrrio, ele vivia apenas do salrio.
- No sei o que seria de mim sem voc! - Harry exclamava.
De fato, ao entrar achava tudo sempre limpo e em seus lugares. Nesse dia sabia que logo Watkins chegaria para preparar-lhe o banho e ajud-lo a se vestir.
Harry foi at a velha escrivaninha para pegar a correspondncia, farta em convites e cartinhas perfumadas. Cada uma, em caro papel timbrado, recendia um odor caracterstico,
permitindo sua identificao.
Acabava de olhar no relgio quando ouviu um rudo na porta, pouco antes de surgir a figura atarracada de Watkins, carregando camisas muito bem lavadas e passadas.
- Pensava em voc pois constatei que  hora de meu banho - disse Harry, preocupado.
- No  preciso se apressar.
- Como no? J  tarde!
- Um mensageiro comunicou, h algum tempo, que madame est com uma forte dor de cabea e no vai sair esta noite.
- Dor de cabea? Ela parecia muito bem na hora do almoo!
Haviam almoado com a sra. Holland, uma dama da sociedade, clebre por suas reunies culturais.
Harry ficara encantado com o desempenho de Arilla na conversa, to diferente das frvolas fofocas da maioria das anfitris do beau monde. Dois dos mais inteligentes
homens de Londres estavam presentes e a ouviram com ateno.
Ao voltarem para Islington, ela se achava to exuberante quanto durante o almoo, e quando ele se despedira, apressado, pois deveria encontrar-se com o prncipe
regente em Carlton House, esquecera-se de que ela poderia estar nervosa por causa do jantar e nem lhe dera uma palavrinha de nimo.
"Deve ser uma desculpa para se livrar do lorde", pensou Harry.
Lorde Rochfield era um homem perigoso e por isso bajulado pela alta roda, preocupada em no t-lo como inimigo. Harry no gostava dele, apenas o aturava, e temia
que Arilla se indispusesse com ele e assim fosse vtima de sua tagarelice difamante.
No se surpreenderia se a prima, no ltimo minuto, se esquivasse do convite, que tambm no lhe agradava
apesar de saber que esses jantares eram muito requintados e regados a bons vinhos.
com a recusa de Arilla ao convite, ele ficara sem programa para essa noite. Estendeu-se indolentemente na espreguiadeira e comunicou a Watkins:
- J que dormi tarde a noite passada, vou aproveitar para cochilar, e depois irei ao clube.
- timo! Terei tempo de sobra para preparar o banho.
Watkins fechou a porta da saleta, e Harry fechou os olhos, mas no apagou a imagem da prima de sua mente, to linda e bem-sucedida no almoo.
"Ningum pode me acusar de no ter feito tudo por ela", pensou. "Mas, coitadinha, certamente esperava um melhor pretendente do que aquele caa-dotes do Fladbury."
Um riso zombeteiro brotou em seus lbios ao pensar no desapontamento de Fladbury caso tivesse se comprometido, por engano, com uma moa to pobre quanto ele.
Ainda pensava na beleza do sorriso de Arilla... quando adormeceu.
- Seu banho est pronto. Vamos, rpido, seno esfria...
Watkins despertou Harry com insistncia. Ele bocejou, resmungou, e foi para o quarto. Deixou que o amigo o ajudasse a tirar o palet de veludo e o culote que lhe
caam como uma luva.
Tomou um banho demorado e repousante e escovava os cabelos para pente-los  moda do prncipe regente quando Watkins disse:
- Eu estive pensando. capito; o recado da madame e o seu vieram pelo mesmo mensageiro!
- O qu? Meu recado? - Harry exclamou arregalando os olhos.
- Pois ... quando vim aqui para pegar a roupa,
um lacaio me disse que tinha um recado de lady Lindsey para o senhor. Como no estava, ele o deixou comigo. Lady Lindsey mandava avisar que no ia ao jantar em casa
de lorde Rochfield porque estava indisposta. Mas agora estou pensando. Como  que um mocinho trouxe esse recado se em Islington s h mulheres... Me lembro de quando
fomos l, uma vez.
- Continue. continue - falou Harry, aflito.
- Bem. Subi para pegar a roupa e, quando desci, uma meia hora depois, lembrei que tinha esquecido as gravatas. Ento subi de novo e, ao descer, o mesmo criado estava
l embaixo.
No aguentando mais tanta prolixidade, Harry perguntou:
- E da?
- Ele me disse que tinha outro recado para o senhor. Que o jantar de lorde Rochfield tinha sido cancelado. Ele falou rpido, parecia assustado e. saiu correndo.
Harry levantou-se nervoso da banqueta e disse com ansiedade:
- H algo muito esquisito nisso! Me d o palet.
- No quero preocupar o senhor, capito, mas  mesmo muito estranho.
- Estranho demais para o meu gosto.
Pegou o chapu das mos de Watkins e o colocou na cadeira, dizendo:
- Se eu precisar dele, volto para buscar. - E, antes de ser censurado, saiu em disparada. Levou apenas alguns minutos para chegar em Piccadilly.
As cavalarias da Manso Rochfield ficavam em uma extensa rea nos fundos da residncia.
Harry entrou na primeira baia, onde encontrou um cocheiro e mais dois lacaios jogando cartas  luz de um lampio.
Tomados de surpresa, os trs levantaram-se em atitude respeitosa. Harry apressou-se em dizer:
- Talvez vocs possam me ajudar. Fui convidado para jantar esta noite com lorde Rochfield e, como vem, estou bastante atrasado. Moro aqui mesmo mostrou a rua s
suas costas - e por isso resolvi vir a p e entrar pelos fundos. Conheo o caminho. Ser que poderiam me abrir os portes?
- Como no, senhor!
E o cocheiro pegou um pesado molho de enormes chaves presas a uma grossa argola de metal enferrujado.
Atravessaram um caminho de pedras at imensos portes de ferro batido que separavam as cocheiras dos jardins da casa. O criado os abriu e, agradecido por receber
uma moeda de prata, se foi.
Harry correu pelo vasto gramado at atingir as janelas do salo de recepo, estranhando encontr-las escuras e fechadas. Todas as luzes do andar trreo estavam
apagadas, mas, ao olhar para cima e deparar-se com as janelas iluminadas do primeiro andar, teve forte convico de no estar enganado: o anfitrio mais uma vez
dispensava suas atenes, da maneira de costume,  mulher que cortejava.
Havia uma slida trelia de madeira de lei, em que rosas subiam em exuberante florescncia, que o levaria ao quarto de luminosidade delatadora.
Quando deu o impulso para se alar, Harry ouviu o grito desesperado de Arilla.
CAPTULO V
Vos foram os esforos de Arilla para se desvencilhar dos braos de lorde Rochfield que, com um golpe de caador implacvel, a prostrou no leito majestoso.
Durante alguns segundos ela permaneceu estendida, com o crebro vazio de ideias, sentindo uma estranha fraqueza.
Respirou fundo e comeou a coordenar os pensamentos mas, antes que pudesse erguer-se, ele j tinha se deitado sobre seu frgil corpo.
Sua nica oportunidade de fuga havia sido durante o momento em que o lorde se livrava da jaqueta. Agora, em calas e camisa, a esmagava sob seu peso, quase incapacitando-a
de respirar.
Um gemido de animalzinho ferido escapou da garganta de Arilla, diante da impetuosidade das mos que lhe rasgavam o vestido. Ainda encontrou foras para gritar, aterrorizada.
- No... no... no!
Seu apelo soava cada vez mais fraco e um sentimento de pavor a feria como a ponta de afiada lmina.
"Oh, Deus, ajudai-me!", concentrou-se numa prece silenciosa. Em algum lugar do quarto um leve rudo se fez ouvir. Era a resposta  sua orao. Como por milagre ela
se viu livre das garras do sedutor.
Lorde Rochfield, em sua sofreguido para possu-la, no havia percebido a entrada de Harry pela janela encortinada. O primo, na mesma hora, entendeu o que se passava
e, antes que o lorde casse em si, puxou-o
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violentamente, desferindo-lhe um soco de mestre que o jogou ao tapete.
Estupefato, um pouco zonzo, e em posio ridcula, lorde Rochfield vociferou:
- Como ousa me atacar, seu idiota?
- Se voc conseguir erguer-se e souber lutar como homem, eu juro que o inutilizarei para nunca mais se meter em aventuras como esta! - provocou-o Harry.
Harry estava em p, com os punhos cerrados, em atitude de luta, mas achou que seria falta de esprito agredir um parceiro cado ao cho.
Apesar de semicerrados, os olhos de lorde Rochfield destilavam dio e rancor.
- Eu vou lutar com voc, Vernon, como um cavalheiro, e o farei pedir desculpas por esse insulto.
- Esperarei ansioso por essa oportunidade.
- Muito bem. Ento no lugar de sempre, em Green Park, ao raiar do dia - disse o lorde entre os dentes, sem se levantar, talvez com medo de ser derrubado de novo.
- Estarei l, para lhe dar uma boa lio.
- Voc  otimista!
Harry nem ouviu essa observao porque se voltara para Arilla, ajudando-a a recompor-se. Abraou-a pelos ombros mas, ante a impossibilidade de ela andar, pois estava
profundamente abalada, teve que carreg-la at a sala de estar.
com muito carinho, ele perguntou:
- Est melhor? Veja se pode disfarar para que os criados no desconfiem de nada.
- Eu... eu estou. bem - ela falou com dificuldade e levantou os braos para ajeitar os cabelos. Nesse momento Harry viu a blusa rasgada.
- Onde est seu agasalho?
com dificuldade, ela se lembrou de que o mordomo o guardara.
- E-es-est l embaixo.
Harry comprimiu os lbios e ergueu o olhar para o alto, como quem procura uma soluo. Largou-a por uns instantes para pegar algumas rosas de um vaso de cristal.
Entregou-as para Arilla, que logo entendeu, apertando-as contra os seios, escondendo assim o rasgo.
Alcanaram a escadaria iluminada pela luz mortia dos candeeiros. Desceram devagar e encontraram o mordomo e dois lacaios a postos, no hall.
com um tom srio e autoritrio, Harry disse:
- Quero uma carruagem de aluguel. Imediatamente um dos criados saiu correndo para
atend-lo.
Enquanto esperavam, Harry viu o casaco de Arilla sobre uma cadeira. Trocou-o logo pelas incmodas rosas e o estrago do difano vestido foi melhor disfarado pelo
manto de veludo.
Observando o primo, Arilla lembrou-se da expresso colrica, jamais vista em outro rosto masculino, de quando ele agredira o lorde. Experimentou uma sensao de
alegria por t-lo visto to alterado por sua causa. Agradeceu a Deus, do fundo de seu corao, a presena dele na hora exata de impedir a consumao de sua violao.
A carruagem chegou. Harry ajudou-a a subir e deu o endereo ao cocheiro. Sentou-se ao lado dela fechando a portinhola.
Muito nervosa, Arilla no parava de falar, ainda que com voz fraca e chorosa:
- Voc. chegou. voc me. salvou.
- Graas a Deus no aconteceu nada! Voc est bem. Isso no vai se repetir nunca mais.
- E. eu. recebi. um recado, dizendo que voc se atrasara e... se encontraria mais tarde comigo em casa de lorde Rochfield!
- E eu recebi um recado, dizendo que voc estava com dor de cabea e. no iria ao jantar.
Arilla deu um grito de espanto e de raiva.
- Ele planejou tudo. para eu ficar sozinha com ele e...
- Esquea, Arilla - Harry a interrompeu. - Tudo acabou, e se ele tentar outra vez... vou mat-lo.
- Mas... vai se bater em duelo, no vai? Ele pode matar voc!
- Ele  bom de tiro, mas eu tambm sou.
- No v, por favor! vou dar um jeito de impedir.
- Nem voc, nem ningum poder impedir.
- Pensei que fosse proibido.
- Mas ainda acontece.  a maneira digna de cavalheiros resolverem uma questo - explicou Harry. Aquele desgraado est longe de ser um cavalheiro, mas. no posso
me recusar a um desafio.
- Por favor, por favor, Harry! E pensar que eu sou a razo disso tudo.
- No se preocupe comigo.
Ela abafou um soluo para perguntar:
- Aonde estamos indo?
- Para Islington. Mas antes preciso ter uma palavrinha com Charles Ledger. vou pedir-lhe para ser minha testemunha. Depois de levar voc para casa, pensarei em algum
mais.
- Como posso ficar em casa sabendo que voc est arriscando sua vida por minha causa?
-  o que deve ser feito. Depois de tudo terminado, voltarei para contar como foi.
- vou com voc - afirmou ela. - Nem que seja para ir a p... sozinha.
- Nada disso. No  lugar para mulheres.
- Ningum precisa saber que eu estou l. Posso esperar na carruagem ou... me esconder entre as rvores.
Ela hesitou por um momento antes de continuar.
- Juro, Harry... no vou aguentar. Precisarei saber o que est acontecendo.
Falou de maneira to enrgica e ao mesmo tempo to pattica que fez Harry considerar o assunto e depois dizer:
- Est bem, vamos ver o que podemos fazer. Pronto, chegamos. Esta  a casa de Charles. Ele mora com a me, por isso voc pode entrar e me esperar enquanto vou procurar
uma conduo mais conveniente.
Aps descerem da carruagem, ele a conduziu ao majestoso hall de entrada e comunicou ao mordomo: - Quero ver sir Charles, em particular.
- Sua Senhoria j se retirou - o mordomo disse olhando para Arilla - mas. informarei sir Charles de sua presena.
Depois de encaminh-los para uma enorme sala, forrada de livros at o teto e iluminada por tocheiros de madeira lavrada, dispostos lado a lado da lareira, o mordomo
saiu.
Arilla no tinha olhos para mais nada, a no ser para Harry. Fitava-o com ar de splica, rezando para no ser obrigada a voltar a Islington. No abriria mo de assistir
ao duelo.
Nenhum dos dois falava quando Charles apareceu, explodindo de surpresa e alegria.
- Harry, meu amigo, voc por aqui? - E surpreendeu-se ainda mais quando viu Arilla. - E lady Lindsey tambm?
- Quero que voc seja minha testemunha - disse Harry, indo direto ao assunto.
- Quem voc vai desafiar? - Charles perguntou, agora assustado.
- Rochfield. Espero aleijar aquele excomungado.
- Na certa ele aprontou uma das dele! Onde vai ser?
- No lugar de costume: Green Park, ao alvorecer. Estou sem comer nada, Charles.
- E lady Lindsey tambm, no ? vou mandar providenciar qualquer coisa.
- Para mim no precisa, obrigada.
- Ela jantou com aquele endemoniado, depois de ele ter mandado dizer que o jantar fora cancelado
- explicou Harry.
- J sei. jogo sujo, como sempre - Charles concluiu e puxou a larga passamanaria que acionava a sineta para chamar o criado.
- Mas desta vez me atingiu em cheio. Teve sorte de eu no o ter matado no flagrante.
- No seria de admirar.
O mordomo abriu a porta e declarou:
- s suas ordens, senhor.
- Bateson, o sr. Vernon no jantou. Mande preparar alguma coisa rpida e leve. Traga-nos um champanhe tambm.
- Muito bem, sir - falou ele, mas estranhou as ordens em hora to imprpria.
Ao notar o abatimento de Arilla, que se jogara em uma das poltronas de couro da biblioteca, Harry mais uma vez insistiu:
- Deixe-me lev-la para Islington.
Ela no disse nada mas seus olhos suplicantes foram a resposta.
- Est bem, est bem. - E, dirigindo-se ao amigo:
- Charles, ela insiste em assistir ao duelo e voc sabe. ningum poder v-la.
- Acho que no deve ir - Charles aconselhou.
- Eu sei mas... ela  a causa do duelo! - E Harry deu uma risada significativa.
- No nega que  sua prima. imprevisvel como voc. Tudo bem. Vamos em nossa carruagem ento. At ser bom para o caso de acontecer alguma coisa.
 no pode terminar porque Arilla deu um grito de horror.
- Oh, por favor, sir Charles, impea esse duelo ridculo e absurdo. Harry j esmurrou lorde Rochfield. Ele nunca mais vai me aborrecer.
Os olhos de Charles faiscaram de prazer e, rindo, ele se interessou:
- Voc derrubou o lorde, Harry? Deve ter sido uma experincia nova para ele, que insiste sempre no duelo antes de ser atacado fisicamente. Sempre ganha, pois  muito
bom na mira.
Harry no se abateu com essa observao e retrucou:
- Essa vez ser uma exceo.
- Espero. Mas voc vai precisar de muita habilidade e de sorte tambm.
Quanto mais falavam, mais Arilla ficava nervosa. Compreendia porm que, por uma questo de honra, o primo devia aceitar esse desafio. E a ela... s restava rezar.
Enquanto Harry jantava, os dois amigos conversavam e riam animados. Charles insistiu para que Arilla os acompanhasse no champanhe.
- Acho bom chamarmos Anthony ou Edward. Precisamos de mais uma testemunha. Enquanto lady Lindsey fica aqui para repousar um pouco, minha me ter prazer em fazer-lhe
companhia.
- Tudo bem, eu fico, contanto que prometam no ir sem mim para o parque.
- Arilla, eu preciso ir para casa me trocar. Aproveite e descanse. Juro que voltarei para busc-la.
- No h necessidade de lady Lindsey ir l em cima. H um dormitrio aqui no trreo que meu pai usava quando tinha preguia de enfrentar uma escada - Charles informou.
Assim que acabou de falar, levou Arilla a um quarto confortvel, ao fundo do corredor.
Eles haviam reiterado a promessa de lev-la mas exigindo que ela dormisse. Embora sabendo que no era possvel, Arilla assim mesmo deitou-se.
Comeou a rezar para que Harry no fosse ferido e, apesar dos pressgios funestos de Charles, que sasse vencedor. Pouco entendia de duelos, apesar de seu pai ter
contado que participara de um, quando jovem, e fora gravemente ferido.
"Lorde Rochfield  um verme desprezvel", pensou. " capaz de ferir Harry mortalmente para se vingar da humilhao e da frustrao por que passou."
Esse desabafo a deixou mais alarmada. As horas passavam e a ansiedade aumentava. Foi at um alvio ouvir vozes do lado de fora.
Harry bateu  porta e entrou. Tinha mudado seus trajes sociais por uma roupa esporte. Apesar de saber que alguns duelistas preferiam gravata preta por no serem
visveis, ela no se surpreendeu com a gravata branca de Harry. No era a flmula da paz. era a bandeira da provocao, desfraldada.
Levantou-se rapidamente, mas Harry acalmou-a, avisando:
- No tenha pressa. Charles ainda est providenciando uma carruagem. Meu amigo Anthony Burwood nos encontrar no parque. Voc dormiu um pouco?
- Fiquei rezando. - Arilla fixou os olhos em Harry e lamentou: - A culpa  toda minha. Por que fui inventar de vir a Londres? Se acontecer alguma coisa... vou preferir.
morrer.
- No vai acontecer nada. E, se quiser rezar, pea a Deus para que eu arranje um meio de afastar esse homem de voc.
Havia ainda grande ressentimento na voz dele, o que a fez desejar externar sua alegria por sab-lo to interessado em sua integridade, mas limitou-se a dizer:
- Voc sempre teve sorte, Harry, e estou certa de que todos os seus amigos esto apostando em sua vitria.
- Menos Charles. Ele tem razo; lorde Rochfield tem fama de nunca ter sido derrotado.
- D um jeito de ele perder.
Harry deu risada diante da ingenuidade dela e a levou para o salo, onde os amigos tomavam champanhe.
- No beba muito, Harry - aconselhou Charles.
- No sou louco - replicou ele. - Quero estar bem atento para derrotar meu inimigo.
O clima era de euforia, talvez para disfarar o nervosismo, recurso caracterstico dos momentos de expectativa de um desfecho imprevisvel. Os amigos acomodaram-se
na enorme e confortvel carruagem e, rindo s gargalhadas, chegaram a Green Park.
- Entendeu bem, Arilla? Acontea seja l o que for... veja bem, seja l o que for - Harry frisou -, voc deve permanecer dentro da carruagem e no deixar que ningum
a veja. - Em seguida, prosseguiu com gravidade: - Charles e eu estamos infringindo as regras do duelo permitindo a presena feminina em campo. Por isso obedea.
- vou mandar o cocheiro estacionar a carruagem de maneira a permitir a viso de tudo por entre as rvores e arbustos - Charles prometeu.
- Watkins ficar com voc - acrescentou Harry. Arilla sabia ser esse o nome do valete, que por certo
queria estar presente, caso o amo fosse ferido.
Charles abriu um luxuoso estojo que continha duas pistolas.
Quando Harry ia descendo do carro, Arilla segurou-o pelo brao e disse:
- Cuide-se, primo, pelo amor de Deus!
- Confio em suas oraes, priminha - disse ele e sorriu antes de acompanhar Charles.
Arilla teve mpetos de correr atrs dos dois, mas a carruagem j se movia para ser levada para mais perto do campo de luta.
Atravs da cerrao ela distinguiu Harry, Charles e um terceiro homem conversando. Vindos da direo
oposta, surgiram mais trs vultos masculinos. Lorde Rochfield caminhava  frente.
Ele mostrava confiana e determinao em seu andar firme e pesado.
- Meu Deus, ajudai Harry - ela implorou.
A portinhola rangeu e Watkins enfiou a cabea para dentro da carruagem.
- Tudo bem, milady? Ela foi sincera.
- Eu. eu estou com medo.
- No se preocupe, ele sabe se cuidar. - A voz de Watkins era doce, quase maternal. - E aqui eu tenho tudo para uma emergncia.
- Espero que no precise.
- Sua Graa tem fama de ser bom atirador mas meu amo no fica atrs... - Ele sorriu, fechou a portinhola e se esgueirou por entre a vegetao.
Arilla aproximou-se da janela e sentiu a aragem fria que vinha de fora.
A nvoa da madrugada dava ao parque um aspecto sinistro e misterioso. No era ambiente favorvel a um duelo.
Contudo, alguns minutos mais tarde, a aurora comeou a clarear o cu. Foi quando apareceu um outro cavalheiro, caminhando devagar para o centro do gramado: era o
juiz.
Pela morosidade de seus passos, Arilla concluiu que, alm de ser velho, devia estar contrariado com a interrupo de seu repouso.
O cu j mostrava pinceladas coloridas e brilhantes quando o juiz chamou para perto de si os dois antagonistas. Ele os instrua sobre as regras do "jogo", como era
de praxe.
Enquanto Arilla respirava fundo e iniciava uma orao, a cerimnia teve incio.
Harry e lorde Rochfield, de costas um para o outro,
pistolas nas mos, esperaram o sinal do juiz para comear. Assim que foi dada a ordem, eles comearam a caminhar. Dariam dez passos antes de se voltarem para atirar.
Agora, bem ao longe, um som fraco ecoava:
- Um. dois. trs.
Arilla s enxergava Harry e acompanhou suas preces com uma chuva de ptalas de rosas sobre o cho da carruagem.
- quatro... cinco. seis.
Harry se movia com elegante leveza. Apesar de no ver lorde Rochfield, Arilla imaginou-lhe os passos duros e marciais.
- sete. oito. nove...
Arilla susteve a respirao, e o juiz gritou:
- Dez!
Os dois homens se voltaram.
A detonao das pistolas pareceu simultnea, apesar de Arilla querer convencer-se de que Harry tinha atirado antes.
Procurou com o olhar a figura de lorde Rochfield e viu que ele cambaleava. Harry o havia acertado! Quando ia dar um suspiro de alvio, ela viu o primo tambm cambaleando,
segurando o brao esquerdo.
Ento, esquecendo-se de tudo exceto de que ele estava ferido, saiu correndo por entre as rvores do bosque para chegar mais perto. Viu Charles ajudando-o a sentar-se
na grama. Watkins passara como um raio por ela para ir em socorro do amo.
De repente, Arilla descobriu, com o sofrimento e a aflio que sentia, que amava o primo perdidamente. Amava-o, apesar de no querer admitir, fazia muito tempo!
- Est tudo bem, senhora - disse Watkins. - Ele perdeu muito sangue mas o ferimento  apenas muscular.
O valete tinha cortado a manga do palet de Harry e j fizera um curativo em seu brao.
Arilla via sangue em toda a parte e, ao v-lo plido e trmulo, sentiu-se mal pela crueza da cena e pela inutilidade dela.
- Que diabo voc est fazendo aqui? - perguntou Harry entre caretas, devido  presso da mo de Watkins, que tentava estancar-lhe o sangue.
- Devamos ter trazido um mdico - murmurou Charles. - Mas Harry achou desnecessrio.
- Seria muito bom - Arilla observou. - Ser que... - Ela parou de falar e olhou para o lugar onde lorde Rochfield estava deitado, com mais trs cidados ao redor.
- Voc o feriu, Harry - disse Charles entusiasmado. - vou ver como ele est.
- No me venha com nenhum "aougueiro" - disse ele, referindo-se ao mdico. - Estou muito bem, me levem para casa.
Carregaram-no para o veculo, no sem antes de ele tentar andar, apoiando-se nos amigos.
- Vamos para Islington - disse Arilla baixinho ao cocheiro. - Assim poderei cuidar dele - acrescentou, dirigindo-se a Watkins.
- Boa ideia, milady - apoiou o valete. - Eu estava pensando nisso mesmo.
A luz do alvorecer, atravessando as vidraas da carruagem, mostrou sem disfarce a palidez do rosto de Harry, cujos olhos permaneciam cerrados.
Arilla olhou preocupada para Watkins, que disse:
- Eu tenho um frasco de brandy aqui no meu bolso. Se a senhora quiser fazer o favor de pegar para mim.
Ela viu as mos manchadas de sangue de Watkins e prontificou-se a ajud-lo.
Harry sorveu a bebida com gosto e balbuciou:
- Melhorou muito! Agora, rua Half Moon.
Arilla deu uma piscadela significativa para o valete.
Charles aproximou-se da viatura e, verificando que
o amigo tomava quase todo o banco traseiro, participou:
- Eu e Anthony vamos andando a p, at encontrarmos uma carona. Voc est bem, Arilla?
- Estou bem, obrigada.
- Voc se saiu muito bem, meu irmo. Rochfield tem um buraco no brao, que levar meses para fechar. Est louco da vida!
- Ainda bem... estou vingado.
- Tome conta dele, Arilla. Estou s ordens caso precise de alguma coisa. No faa cerimnia.
- Obrigada, Charles.
Arilla, em voz muito baixa, deu o endereo de Islington.
Chegando l, Harry mal se deu conta de onde estava. Sentia-se fraco para argumentar. Arilla, Watkins e um lacaio transportaram-no para dentro.
Rose os levou ao confortvel quarto onde lorde Barlow ficava quando eventualmente passava a noite na casa.
A partir de ento Watkins tomou todas as providncias: fez a toalete em Harry e chamou o mdico do prncipe regente. Insistiu para que Arilla fosse se deitar, mas
ela relutou, tentando fazer alguma coisa para ajud-lo.
- Milady no se aguenta em p. V descansar para depois ter condies de ficar aqui, ao lado de Harry, enquanto eu durmo um pouco - ele sugeriu com ternura.
"Cada vez mais ele lembra minha governanta", pensou Arilla. "Ela no admitia palpites e sempre acertava."
Afinal, resolveu seguir o conselho. Despediu-se e, achando que no ia conseguir... adormeceu.
Um complexo de culpa apoderou-se de Arilla quando despertou  hora do almoo.
87
- Como vai o sr. Vernon? - perguntou a Rose.
- O sr. Watkins est satisfeito. O mdico esteve aqui e disse que ele s precisa de descanso, por isso receitou uns calmantes para garantir-lhe um sono repousante.
- Ento ele est dormindo?
- Como um beb, milady. Trouxe seu almoo. Depois, v ver como ele est passando.
Agora, todos na casa viviam em funo de Harry. Isso vinha provar, mais uma vez, o grande poder de atrao de seu charme, responsvel pelo calor dessa hospitalidade.
A grande quantidade de sangue que ele havia perdido e os soporferos ministrados pelo mdico eram, segundo Arilla, os causadores de sua palidez e aparente inconscincia.
Sentando-se ao lado da cama, ela teve a impresso de estar guardando uma criana indefesa, carente de afeto e proteo.
Mas ao mesmo tempo enxergava o homem valente que ele fora e que ela amava com todas as foras de seu ser. Sem poder controlar-se, derramou toda sua emoo sobre
aquele corpo magoado e passivo.
Tentou convencer-se da insensatez de seus sentimentos e da necessidade de reprimi-los, mas percebeu que era mais fcil fazer parar as mars ou apagar a luz do sol.
- Eu o amo... eu o amo... eu o amo, Harry - falou para si mesma. - No vou me casar com ningum! Estremeo s em olhar para ele... Ao inferno o dinheiro!
A alma de Arilla vibrava como nunca acontecera antes em toda sua vida. Foi at a janela tomar um pouco de ar fresco e recompor sua emotividade. Procurou raciocinar
e chegou  concluso de que seu amor era um sonho irrealizvel. Precisava esquec-lo.

Eu inventei essa absurda histria para ajudar Harry e a mim mesma. ", pensou, "e agora devo pagar caro essa estupidez."
Sabia que o nico meio de ajudar o primo seria fazendo um casamento rico. Ento daria tudo a ele...
Como um cavaleiro to bom no tinha cavalos? E na velhice. iria continuar a viver de obsquios? Ou morreria  mngua?
"Preciso fazer alguma coisa... ", ela pensou.
Essa inteno sua significava entregar-se s carcias de outro homem, a quem detestaria com a mesma intensidade que odiava lorde Rochfield.
"Mas... o que  o amor seno renncia e sofrimento? vou encontrar a mina de ouro: meu marido! "
Voltou para junto do leito, e Harry, ainda de olhos fechados, pareceu-lhe mais belo e atraente do que nunca.
Se um dia ele a beijasse, seria to maravilhoso quanto transpor os umbrais do paraso!
"Eu amo voc, amo voc, meu querido."
com os olhos fixos nele sentou-se e assim permaneceu por toda a tarde.
CAPITULO VI
O dia estava cinzento e nublado, e no menos triste estava o corao de Arilla.
Harry tinha febre alta e a dor em seu brao o deixava inquieto e abatido. Apesar de ele estar sendo assistido pelo mdico do prncipe regente, os remdios no surtiam
o efeito esperado. Arilla passava as manhs e as tardes ao lado dele, e  noite Watkins o atendia.
- No gosto de interferir... dr. William, me desculpe, mas mame sempre dizia: "O mel  um santo remdio", e costumava pass-lo em minhas machucaduras de criana
- comentou Arilla um dia.
- Se no ajudar. mal no vai fazer - assegurou o mdico.
E mais uma vez os palpites acertados de uma me foram postos em prtica. Na manh seguinte, tanto Watkins como o dr. William ficaram pasmos. A febre e a dor comearam
a ceder, e a ferida entrou em visvel processo de cicatrizao.
- Benditas sejam as abelhas! - o fiel valete exclamou, to logo o profissional saiu.
Mas Arilla agradecia a Deus a sensvel melhora do primo.
Harry dormia placidamente e ela aproveitou para agradecer os cartes e as flores recebidas de inmeros amigos. Muitos at haviam mandado cestas de frutas, muito
bem acolhidas, alis, pois o dinheiro estava escasseando e ela no sabia quando iria recomear sua "caa ao tesouro"... ao marido endinheirado. Mas, por ora, a sade
de Harry era mais importante.
Acabava de subscrever um envelope quando Rose anunciou:
- A condessa de Jersey, milady.
Arilla levantou-se com presteza e a recebeu fazendo uma discreta reverncia.
- Vejo que est muito bem instalada! - observou a velha senhora. - Porm, este no  um endereo apropriado a uma lady candidata ao beau monde.
- J fui admitida nele, graas a Vossa Senhoria Arilla retorquiu.
- Concordo, todavia a presena de seu primo aqui nesta casa pe em perigo sua boa reputao. O melhor a fazer  casar-se com ele.
As faces de Arilla cobriram-se de rubor, seus olhos chamejaram por um instante, mas logo em seguida ela achou que a condessa queria garantir um futuro promissor
ao jovem Harry Vernon. E sua concluso foi logo confirmada pelas palavras que se seguiram:
- Seria a soluo ideal unir o til ao agradvel. Duvido que Harry encontre moa mais linda e to rica como voc.
Enquanto Arilla procurava o que dizer, a condessa prosseguiu:
- Voc o considera atraente, no? No ser exceo  regra. Todas as mulheres se apaixonam quando o vem.
- E... eu acho... - disse Arilla com dificuldade
- eu no... represento nada. Ele  bom para mim porque... sou sua prima.
- Bobagem! Como todo homem, ele se preocupa em demasia consigo mesmo...  egocntrico. Creio que tenha se enfeitiado e se interessado por seu dinheiro, caso contrrio
no a trataria com tanto carinho.
A vontade de Arilla era alardear seu amor por Harry, confessar o grande sonho de sua vida, mas preferiu
ser prudente e continuar a farsa de viva rica. Esforou-se para falar com tranquilidade:
- A nica coisa que me interessa no momento, senhora,  pr Harry em p. Ele teve febre alta e perdeu muito sangue.
A condessa suspirou.
- Essa juventude no tem juzo! Precisariam arranjar um outro meio, to honroso quanto esse ridculo duelo, para se resolver uma contenda. Mas... ao mesmo tempo,
entendo que voc, bonita como , tenha sido motivo  altura para esse desafio.
- No... no... - Arilla quis desculpar-se mas ela a interrompeu, com ar malicioso.
- Afinal de contas, o que houve? Estou curiosa. No  do feitio de Harry provocar algum. ainda mais uma pessoa distinta como Rochfield. Essa tambm  a opinio
do prncipe regente, que por sinal est triste e contrariado.
- Que pena! - Foi tudo o que Arilla achou para dizer.
- Siga meu conselho: case o quanto antes, assim tudo ser relevado e esquecido. Est bem?
A condessa deu umas palmadinhas nas costas de Arilla e se retirou, depois de deixar uma linda cesta de frutas dispostas ao redor de um pote de caviar.
Harry j estava suficientemente bom para saborear as apreciadas ovas e, ao faz-lo, comentou:
- Minha cotao deve subir muito depois dessa visita.
- Ela foi bastante amvel em vir pessoalmente saber de sua sade. Estranhou que voc estivesse aqui comigo, esperava encontrar minha dama de companhia disse Arilla,
querendo ver como ele reagiria a essa observao.
- No acredito que ela ou mesmo o suno do Rochfield me considerem um conquistador perigoso... nessa altura dos acontecimentos. - Ele olhou para a bandagem de seu
ferimento.
Ambos riram e Arilla, aproveitando-se do bom humor dele, ordenou:
- Agora voc precisa descansar um pouco. Veja se dorme.
- Detesto ficar na cama. vou me levantar - reclamou ele, como um garoto desobediente.
- Nada disso. Enquanto o dr. William no der alta, voc continua "de molho". Watkins me recomendou para no deix-lo sair da cama.
- Tanto voc como ele esto parecendo uma bab que eu tive.
- Ficamos muito preocupados, Harry, e Charles tambm ficou nervoso - ela falou com doura.
Charles aparecera de manh bem cedo e ficara contente com o progresso na recuperao do amigo. Comentara jocosamente sobre lorde Rochfield:
- D-se por feliz, o "lobo mau" est sofrendo um bocado! A ferida no quer fechar e ele grita de dor.
- Devia ter lhe cortado a cabea.
- E a esta hora estaria fugindo para o continente. Para Paris, talvez? Mas a Cidade Luz no seria interessante sem vida noturna... e como voc a teria, sem um real
no bolso?
- No comece a falar de minha pobreza! vou j, j, arranjar um emprego de lavador de pratos... em Carlton House. Ao menos no morrerei de fome!
- Por falar nisso, voc perdeu um senhor jantar, ontem. de trinta talheres!
- Graas a Deus. uma amolao a menos! Arilla surpreendeu-se com a resposta, que lhe trouxe
ao pensamento a ideia de retorno s recepes, bailes e outras atividades sociais.
Agora, mais do que nunca, desagradava-lhe, at mesmo parecia-lhe degradante aceitar convites com a tcita finalidade de encontrar um marido.
"No aguento mais", ela pensou.
Mas no tinha outra alternativa a no ser voltar para sua cidadezinha e ter uma vida miservel e solitria.
Lembrou-se tambm do retorno de Mimi... Para onde iria caso ela estivesse de volta? Veria Harry, como agora?
Perguntara a Rose quanto tempo a patroa ficaria fora, mas ela tambm no sabia, pois Mimi e lorde Barlow ainda fariam uma temporada em Nice, uma linda praia do Mediterrneo.
Isto alegrou bastante Arilla porque teria possibilidade de permanecer mais algum tempo em Islington.
"Tomara que dona Mimi esteja se divertindo e no tenha sabido o que aconteceu com o sr. Harry. Ficaria muito aborrecida", falara ento Rose, para inquietao de
Arilla.
Assim que Harry despertou, aps o repouso da tarde, ela tocou no assunto que tirara seu sossego.
- Fale-me sobre a dona desta casa. Rose me disse que ficaria desesperada se soubesse de seu ferimento.
- Rose fala demais! - ele comentou com rapidez.
- O dono desta casa  meu amigo lorde Barlow.
Apesar da seriedade e aspereza dessas palavras, ela no se conteve e ousou perguntar:
- Se Mimi fosse rica, voc se casaria com ela? Harry arregalou os olhos com expresso de horror.
- Pelo amor de Deus! Nunca! Quem casaria com as Mimi deste mundo? S um louco! Porm, ela  uma pessoa linda. encantadora. Apenas isso voc deve saber.
- Mas tenho curiosidade...
- No sei de qu.
- Rose me disse que ela "arrasta um trem" por voc... ou melhor, ama voc e... eu achei.
- Pare de achar - ele ordenou. - Moas de famlia no devem se preocupar e nem falar dessas mulheres. No toque mais no nome de Mimi, por favor.
- Eu. eu no entendo - disse Arilla desconcertada.
- Essa discusso me cansa, Arilla. - E ele fechou os olhos, para pr um ponto final ao assunto.
Esse desfecho no sossegou o corao de Arilla, que teimava em admitir algum sentimento mais elevado entre o primo e a amiga. Sua angstia ainda no havia passado
quando Rose anunciou a marquesa de Westbury, a qual surgiu na sala, elegantssima, com um chapu ornado de penas de avestruz e um vestido de corte impecvel, que
revelava sua silhueta esbelta.
Arilla cumprimentou-a sem esconder o nervosismo e a insatisfao.
- Boa-tarde, milady - ela disse fazendo discreta reverncia.
- Quero ver Harry Vernon, e... no tente me impedir.
- Jamais faria isso... mas meu primo est dormindo e no seria conveniente interromper seu descanso.
Ela achou que a marquesa iria insistir para acord-lo mas, em vez disso, a mulher acomodou-se em uma das poltronas frente  lareira.
- Deve estar a par dos comentrios desfavorveis a seu respeito, no, lady Lindsey? Poderia ter sido mais hbil e evitado o duelo entre Harry e lorde Rochfield.
- Era a ltima coisa que eu desejava...
- Duvido! Mesmo tendo vindo do interior, poderia ter sido suficientemente inteligente e sagaz para no criar tal situao entre dois cavalheiros tidos como timas
pessoas em toda Londres.
Arilla achou melhor no discutir e tratou de mudar de conversa:
- Tenho tima notcia: Harry j est quase bom!
- Ento est na hora de... ele voltar para o apartamento. O fato de voc ser parente no  uma atenuante s nossas rgidas convenes vitorianas.
- Harry sabe o que faz - Arilla retrucou e, aprumando-se, foi ver se ele havia acordado.
Subiu as escadas tremendo de raiva ante a atitude da marquesa e por causa da estonteante beleza dela.
"No  possvel que Harry no tenha se apaixonado... ", pensou.
Ao entrar no quarto, ela viu Watkins afofando os travesseiros amarfanhados.
- Dormiu bem, Harry? - perguntou.
Ficou encantada com a figura bela e atraente do primo. O colorido voltara s faces lisas e, apesar de ele estar um pouco mais magro, sua aparncia era realmente
fascinante.
- Venha c, vamos conversar um pouco - ele disse pegando o jornal. - Quais so as notcias? Estou com preguia de ler.
- Voc tem visita - ela disse num sussurro.
- Quem ?
- A marquesa de Westbury quer ver voc.
- Faa-a subir. - Imediatamente voltou-se para Watkins: - Estou bem assim?
Arilla no disse nada. Saiu do quarto e, ao descer as escadas, sentiu que alguma coisa a maltratava: o cime.
A marquesa adentrou os aposentos do rapaz, e Arilla os dela, atirando-se  cama para romper em sonoro pranto.
"Como posso ser to boba?", gemeu.
Sabia a resposta a essa pergunta. O responsvel era o grande amor que sentia, levando-a s vezes a uma agonia, e outras  ressurreio.
- vou me levantar... vou me levantar... - insistia Harry sob os protestos de Watkins.
-  muito cedo, capito.
- Chega de ser tratado como uma criana ou um adulto imbecil - ele reclamava. - Depois do almoo
e do meu repouso, vou sentar-me  janela para respirar ar puro e me deliciar com a paisagem.
- Tudo bem, mas. se voc tiver uma recada e for forado a passar mais uma semana na cama, no se queixe"- Arilla avisou ao entrar.
- Mas eu estou me sentindo bem, Arilla, e tambm estou farto de ver todo mundo me rodeando como se eu fosse um heri ferido voltando do campo de batalha.
Ele estava irritando Arilla, que no parecia de muito bom humor por causa da visita da marquesa. Lembrava-se da expresso feliz e esperanosa que ela demonstrara
ao sair do quarto por haver constatado timo estado de sade de Harry. Arilla no queria admitir, mas sua vontade era conservar o primo em sua casa, afastado de
investidas femininas.
- E ainda tem mais - Harry prosseguiu enquanto Watkins se retirava. - No vou permitir que voc fique a, do lado de minha cama, como um anjo da guarda. Que convite
voc tem para hoje  noite, Arilla?
- vou jantar aqui no boudoir com um homem muito simptico, que no pode descer escadas ainda. mas vai se trajar muito elegantemente.
- Como adivinhou que eu queria jantar sozinho com voc? E se eu preferisse uma recepo cheia de convidados?
Por um momento ele manteve um sorriso nos lbios mas logo continuou provocando:
- Depois poderemos jogar cartas, ou talvez. danar!
Arilla no conteve um gritinho de desaprovao.
- Garanto que depois dessa folia voc vai ser o primeiro a querer voltar para a cama.
- Olhe, vamos jantar juntos se voc prometer voltar ao "trabalho" amanh. Quantos convites rejeitou?
- Francamente, nem sei! Foi muito melhor ficar em casa, com voc.
- Mas, Arilla, estamos perdendo tempo e dinheiro! Temos que pagar esse bendito mdico.
- Quanto?  muito?
- Demais!  o mdico da nobreza. Prepare-se porque voc vai comear a ir a festas sem mim.
- Ah, Harry, pelo amor de Deus! Voc sabe que eu no gosto.
- No  questo de gostar mas... de precisar. O episdio Rochfield terminou e voc no pode cair no esquecimento de seus outros admiradores.
com melancolia, ela concordou em voltar  busca do marido rico o mais depressa possvel.
Depois do almoo, Watkins fez a toalete de Harry, para que ele repousasse, e Arilla desceu para se inteirar da correspondncia. Havia uma pilha de convites dirigidos
a Harry, e outra a Islington.
No incio de sua vida em Londres ela se alegrava com o grande nmero de pessoas importantes que a convidava para festas. Hoje, preferia ficar com Harry a fim de
desfrutar de sua companhia radiosa e cativante.
Estava apaixonada, mas precisava ser sensata e, tambm, agradvel a ele; por isso iria s recepes.
Ia chamar Rose a fim de providenciar um mensageiro para comunicar sua deciso aos anfitries que escolhera, quando a ouviu anunciar:
Lorde Rochfield, milady.
O sangue de Arilla gelou nas veias. Quase no conseguia mover-se. Mal podia acreditar no que via e muito menos no que ouvia. O lorde, muito magro e plido, com o
brao na tipia, dizia com voz fraca e trmula:
- Precisava v-la, minha querida. Levantei da cama para matar minha saudade antes que ela me matasse.
Penalizada pelo aspecto dele, logo ela o fez sentar e ofereceu-lhe um drinque reconfortante.
- Uma taa de champanhe seria bem-vinda - ele disse, agradecido.
Arilla puxou o tirante de passamanaria que chamava a criada. Pela rapidez com que ela atendeu, concluiu que a moa estava atrs da porta,  escuta. Watkins devia
ter feito comentrios sobre o duelo com a criadagem. Era natural a curiosidade da camareira.
Arilla guardava distncia do visitante inesperado que, com leve expresso de desgosto, falou:
- Tenho tido notcias de seu paciente; parece estar quase bom, no ?
- Est - ela respondeu secamente. Logo acrescentou: - Gostaria de faz-lo saber que estou de pleno acordo com a condessa de Jersey, pois tambm achei o duelo um
absurdo!
- Pois a condessa foi motivo de muitos duelos, no passado! Apesar de ter sido belssima, no chegava a seus ps.
- Espero que nunca mais acontea. Fiquei to aborrecida!
- Era a nica coisa que eu temia, minha flor.
A meiguice e a sinceridade dessas palavras surpreenderam Arilla.
Rose entrou com o champanhe. Depois de ter posto a bandeja em uma das mesinhas ao lado do sof, retirou-se.
Houve um silncio embaraoso. Arilla, temendo ouvir palavras atrevidas e impertinentes, olhou para a janela, livrando-se do olhar penetrante do lorde.
-  muito cedo para o senhor estar saindo e... permita-me ser sincera... foi um erro ter vindo a esta casa - ela o censurou.
- No cometi nenhum erro. No poderia esperar mais para saber se me daria a honra de ser minha esposa.
Por um segundo ela achou que no tinha entendido e, ao voltar-se com ar de espanto, ele j prosseguia:
- Eu fiz tudo para evitar um segundo matrimnio infeliz, depois da perda de minha mulher. Mas estou
irremediavelmente apaixonado e tenho certeza de encontrar a felicidade em sua companhia. A vida para mim no  vida... sem voc. - Os lbios sem cor contorceram-se,
mostrando um arremedo de sorriso, e balbuciaram: - Se for capaz de me perdoar pelo meu mau procedimento, seremos muito felizes juntos, e voc ter tudo o que desejar...
Na mesma hora, Arilla visualizou cavalos de raa, carruagens luxuosas, dinheiro, muito dinheiro para Harry. Mas... ao examinar aquele corpo, agora um pouco combalido,
que pesara sobre o seu, provocando-lhe um mal-estar desesperador, ficou outra vez horrorizada. Ela o odiava.
Como se adivinhasse seus pensamentos, ele disse:
- Nunca supus chegar quele ponto... Voc estava incrivelmente fascinante e eu no pude evitar de desej-la. Ademais, no poderia imaginar, pelo fato de ter sido
casada, que fosse to ingnua a ponto de se aterrorizar daquela maneira.
Lorde Rochfield fez uma pausa e, como ela permanecesse em silncio, continuou:
- Durante minha convalescena, pensei muito e cheguei  concluso de que no adiantaria me desculpar, coisa que fiz pouqussimas vezes. Devo ensin-la a confiar
em mim e acreditar na minha capacidade de faz-la gostar de mim. amar-me muito.
Arilla o escutava com a impresso de estar sonhando. No era um sonho muito bom, pois ela pressionava os dedos entrelaados e mordia os lbios ressequidos. Na verdade
estava se controlando para no gritar ou sair correndo.
- Ns nos conhecemos muito pouco - lorde Rochfield continuou, com calma - mas voc tem tudo que um homem idealiza para a me de seus filhos. Case comigo, Arilla,
e eu a tornarei a soberana do nosso reino encantado. No haver outra mulher em minha vida, eu juro.
Ele esperou uma objeo, mas Arilla no conseguiu falar.
No, no era verdade! Era um sonho. bom? Um pesadelo? Como? raios, os pensamentos atravessavam-lhe a mente, na maior desordem possvel.
Olhou para o teto, para o cho, e soltou um suspiro profundo que a relaxou um pouco. Um sentimento de orgulho e um autocontrole, cuja fora gigantesca at ento
desconhecera, veio em seu auxlio, permitindo-lhe dizer:
- Sinto-me muito honrada, milorde, mas. o senhor entende... foi uma surpresa. um choque. Depois de tudo que.
- Mas j pedi desculpas! - ele interrompeu com impacincia.
- Eu sei, eu sei... e entendo que foi difcil para o senhor se desculpar. Ao mesmo tempo  difcil para mim ajustar-me a essa situao to. absurda. at mesmo em
meus loucos devaneios.
- Todavia, ela  real - ele insistiu.
- Preciso de tempo para pensar. Assim como o senhor no se dispunha a um novo casamento, eu tambm no estou preparada para assumir um compromisso to srio.
O argumento, apesar de mentiroso, pareceu convencer lorde Rochfield, que atribuiu a dvida de Arilla  sua timidez e nervosismo.
- Pense bem. No se esquea do risco que estou correndo, ao desobedecer as ordens de meu mdico e vir aqui extravasar meus sentimentos.
- Sinto-me lisonjeada. senhor.
- vou esperar. Procure acreditar na felicidade que lhe darei. No se detenha muito em consideraes, ou. me deixar louco! Quero me casar logo, lev-la para bem
longe de Londres, onde ningum nos perturbe. onde possamos nos conhecer intimamente. E, uma vez minha, no se arrepender jamais.
Ao ouvir a palavra "minha", ela sentiu outra vez o horror que o corpo indesejado lhe provocara e lembrou a rudeza das mos atrevidas a lhe rasgarem a blusa de renda.
Agora, mesmo controlado, pois tinha o brao na tipia, em seus olhos brilhava a chama devoradora de sempre. Ele tinha alguma coisa de impuro e degradante que ela
ne conseguia suportar.
De repente, Arilla pensou em Harry e na riqueza de lorde Rochfield e... toda a repulsa foi se distanciando at encontrar a esperana de um relacionamento tolervel.
Aps terminar seu champanhe, o lorde ergueu-se e participou:
- com sua permisso, minha amada, vou me retirar, para amanh ouvir de seus rseos lbios o que de h muito desejo!
-  muito pouco tempo para to grave deciso.
- Considere meus sentimentos e sua posio de grande dama da alta sociedade de Londres! - E acrescentou com vaidade: - O prncipe regente me tem como um de seus
melhores amigos e, em futuro prximo, quando for rei, me quer como seu brao direito, dando-nos assim um lugar de destaque na hierarquia do palcio.
Os olhos de lorde Rochfield esquadrinharam a distncia, como se ele procurasse divisar o futuro.
- Voc se orgulhar de mim, minha deusa, e eu me orgulharei de sua beleza e porte de rainha, alm de sua brilhante inteligncia. Mas minha primeira e prazeirosa
tarefa ser ensinar-lhe as alegrias e os anseios do amor.
O olhar dele desferia chispas de fogo, e Arilla, assustada, foi se dirigindo  porta, dizendo com ar maternal: - Sua conduo o espera. V para casa e tenha um bom
repouso.
-  o que pretendo fazer, mas voltarei amanh... depois de amanh, e quantas vezes forem necessrias at conseguir o que almejo.
Rose j estava a postos e segurava nas mos o chapu alto, a bengala e as luvas de lorde Rochfield. Quando ela lhe abriu a porta, ele ainda falou:
- At amanh. No se esquea: sou um homem impaciente.
Havia um certo tom ameaador nessa afirmao.
Mal ele acabou de sair, Arilla voou para o quarto de Harry e parou no limiar da porta. Ele estava em mangas de camisa, frente ao espelho, tentando fazer o lao da
gravata. Assustou-se com a sbita apario da prima. Ela o encarou, perturbada, para logo em seguida cair em seus braos acolhedores como um abrigo na tempestade.
Harry a envolveu e perguntou, preocupado:
- O que houve? Por que est assim alterada?
- Oh, Harry!... Harry!... - A voz dela era um lamento.
- Diga logo o que aconteceu.
- Lorde... Rochfield!
Os braos de Harry caram em posio de desnimo.
- O que ele fez?
- Esteve aqui.
- Como se atreveu?
- Ele... ele veio me... pedir em casamento! Harry ficou petrificado. Arilla ergueu o olhar para
ele e, com voz trmula, confirmou:
- Ele insiste em se casar comigo. Oh, Harry! Eu no posso... eu no quero.
Um gemido brotou do fundo da alma ferida de Harry.
- Meu Deus! - E os lbios masculinos procuraram os dela.
Arilla pensou que estivesse sonhando. Foi um beijo selvagem e desesperado. Prolongou-se at ele perceber
que o tremor convulsivo de seu corpo passara para o dela.
O momento agora era de enlevo fsico e espiritual. O amor parecia propagar-se em feixes de luz e calor, vindo do peito e alcanando a boca. Arilla no mais se pertencia;
tornara-se parte do ser amado nesse entrelaamento de almas. S depois que ela pareceu ter sado desse xtase celestial  que ele ergueu a cabea e disse, transtornado:
- Por que voc fez isso comigo? Como pde me torturar dessa maneira? Quase me deixou louco!
- Eu te amo, querido. Eu te amo mas... acho que devo me casar com ele... no ?
- Para o inferno com ele... - Harry blasfemou.
- Que se queime no fogo eterno! No posso perder voc. minha amada!
Ele a puxou para si, tirou o outro brao da tipia e abraou-a com paixo.
- Harry, cuidado, seu brao! - ela gritou.
- Que importa meu brao! Eu quero voc. Minha jia preciosa, voc no sabe o que tenho sofrido e... eu no sabia que Rochfield...
- Ele... ele tem. tudo. Excelentes cavalos para voc! S penso em seu conforto, meu amor... No o quero mais dependendo dos outros.
Harry deu uma risada de tristeza.
- Eu tambm no... Mas quem vai se sacrificar casando-se com um suno  voc. O pior  que perder a oportunidade de fazer um casamento feliz com algum mais rico
e mais poderoso que Rochfield.
- Eu sei... eu sei, mas nada  mais importante do que meu amor por voc.
- Como pode ser to boba de amar um pobreto como eu?
- Voc  tudo que um homem deve ser: forte, firme em suas decises, exuberante e divertido, bondoso e
gentil. Quer mais algum adjetivo? Oh, Harry! Eu. te amo. Como posso casar com outro?
Ambos sentaram-se  beira da cama. Ele a cingiu com os dois braos e ela escondeu o rosto em seu ombro.
- A culpa  sua. Como pode ser to absurdamente linda? Seus olhos me perseguem, e a ternura deles me envolve e me acaricia, mesmo quando voc est longe.
Havia calor e sinceridade nessas palavras, e o corao de Arilla se desfazia dentro do peito. Quase sem foras, ela murmurou:
- Se... se eu me casar com ele... ser apenas porque amo voc.
- Droga! Essa no  razo plausvel nem suficiente. Deve haver melhores partidos.
- Se houver... ainda no os encontrei, e duvido que sejam to ricos!
Apesar de Harry no ter dito nada, Arilla sabia que ele, assim como ela, estava pensando no pouco dinheiro que lhes sobrava.
Os braos fortes a apertaram mais um pouco. Quando ela ergueu o semblante, ele percebeu, nos olhos azuis, o desejo de ser beijada. E... beijou-a impetuosamente,
como querendo machuc-la. Foi correspondido com um arrebatamento tambm selvagem, mas maravilhoso.
Harry levou-a consigo para os travesseiros, estendendo-a na cama desfeita. Envolveu-a nos braos e assim a reteve. Sentia bater-lhe o corao. Quase sem flego pela
intensidade de suas emoes, ele sussurrou:
- Voc  minha. Ningum a tomar de mim.
- Jura?
- Juro. Morrerei se for preciso, mas nenhum homem a tocar.
Ele a beijou outra vez, o corpo colado ao dela, transmitindo-lhe calor e doura, revelando-lhe aquele
amor com que ela sempre sonhara: amor verdadeiro, eterno e divino.
- No posso mais viver sem voc. Vamos nos casar, minha querida?
- Eu tambm no posso viver sem voc, mas.
- No h mas - ele interrompeu. - Se pensa que vou permitir seu casamento com Rochfield ou outro qualquer, est muito enganada! Voc vai se casar comigo, apesar
de eu no saber. Talvez Deus saiba o que fazer para no passarmos fome.
Arila escondeu o rosto entre as mos e perguntou temerosa:
- E da? - Harry no respondeu e ela continuou:
- Muitas vezes pensei em como ganhar dinheiro. Meus pais me deram uma boa educao. Sei cozinhar, sei montar muito bem, desde que haja ingredientes e bons cavalos!
- Procurava mostrar-se natural mas estava receosa e desanimada.
- Eu tambm posso dizer o mesmo com relao a cavalos.
De repente ele deu um grito que fez Arilla sobressaltar-se.
- Eureca! Eureca! J sei o que vou fazer. Pelo menos a comida ser garantida, mas... a cozinheira talvez precise ser voc.
- O que vai fazer?
- Sou capaz de domar o mais chucro cavalo que me cair nas mos. Vamos procurar animais destreinados e transform-los nos mais cobiados espcimes da redondeza.
Os olhos de Arilla cintilaram de esperana enquanto Harry continuava planejando:
- No  difcil, s  preciso pacincia. E depois que tivermos nossas prprias matrizes, ento. faremos fortuna!
Agora havia um entusiasmo contagiante em suas palavras.
- timo! Mas, meu querido, e... o capital para os garanhes e guas de puro sangue?
-  fcil!
- Como?
- Tudo ser concretizado, depois que nos casarmos. Arilla no entendeu, e ele, sorrindo, segredou:
- Nossos presentes de casamento! Esse ser o capital que impulsionar nosso trabalho. Um trabalho, minha adorada, financiado e alicerado pelo amor e pelos beijos.
CAPITULO VII
"Obrigada... Senhor! Obrigada... Senhor!", Arilla repetia do fundo da alma, at mesmo nos espaos de Insnia, intercalados ao sono da noite. Mas, ao mesmo tempo,
comeara a sentir remorso pelo que poderia acontecer na vida de Harry. Como priv-lo de uma vida de fausto e faz-lo cair em uma rotina, talvez de sacrifcios e
preocupaes?
Em suas divagaes, enxergava o decadente solar de sua famlia. O papel de parede rasgado, a pintura desbotada e suja, mveis malcuidados e terras que lembravam
jardins... Jamais fariam a felicidade do primo. Mas, ao pensar no grande sentimento que os unia, esses valores pareciam perder de muito sua significao. "Eu te
amo... eu te amo... ", ela dizia em pensamento, sem cessar, deixando-se envolver pela magia do amor.
No segundo dia de convalescena fora do leito, Harry a informou que iria sair.
- Mas ainda  cedo - protestou ela.
- No para o que preciso fazer.
- E o que ? - Arilla perguntou curiosa.
- A primeira pessoa a ser comunicada sobre nosso casamento dever ser o prncipe regente e...  o que vou fazer. Ele gosta de saber das coisas em primeira mo. -
Harry hesitou, sorriu e continuou: - Ficar furioso se chegarem boatos a seus ouvidos. antes de minha participao. E, antes que me esquea, j entregou a carta
a lorde Rochfield?
Harry havia ajudado Arilla a escrever uma carta ao lorde. Nela dizia estar profundamente honrada com a proposta de casamento, mas ainda permanecia sob o impacto
do inesperado duelo. Por isso, precisava pensar muito para no tomar uma deciso errada. Dizia-se tambm desapontada pelo fato de toda a sociedade ter ficado a par
do desagradvel acontecimento. Pedia tempo para reatar seu relacionamento social interrompido, o que lhe daria chance de conhecer melhor seus amigos e assim facilitar
a escolha do futuro marido.
Era uma bonita carta, nada agressiva, mas que j o ia prevenindo para uma possvel negativa. Arilla no queria despertar-lhe a ira, com medo de motivar outra contenda.
"Se ele comear a aborrecer muito, eu o convido para outro duelo", Harry havia dito.
"Voc no vai fazer isso! Chega o que eu passei. E se ele tivesse matado voc?", Arilla dissera, quase chorando.
"Ele no faria isso! Mas para seu sossego... vou trat-lo bem, no se preocupe."
"Ento jure. pelo que voc tem de mais sagrado."
"S posso jurar por voc." E a beijara com fervor, trocando o assunto por um dilogo terno e amoroso.
Harry saiu para o palcio do prncipe. Apesar de ter o brao na tipia, estava elegante e irradiava felicidade, para encantamento de Arilla.
Ao entrar em casa, ela rezou para que Sua Alteza Real no mais estivesse aborrecido e para que derramasse sobre ele sua augusta bno.
Achou-se interesseira por se preocupar tanto com a aprovao do prncipe, mas o futuro deles dependia da generosidade dos amigos e da aceitao da realeza.
Inquieta, Arilla no via a hora de Harry voltar, mas, ao receb-lo, logo percebeu que tudo havia dado certo. Ele a abraou efusivamente, gritando:
- Venci! Venci, minha adorada. Pode se orgulhar de mim.
- Venceu? - ela exclamou radiante.
- Sua Alteza Real no s me perdoou como vai nos presentear com uma recepo em Carlton House, no dia de nosso casamento.
- No diga! Quer dizer que.
- No vai nos custar um vintm. Eu s dei um leve toque quanto ao problema da festa e... ele achou a soluo. Sou ou no sou inteligente?
- Voc  um gnio! Eu te amo. - Um grande beijo a transportou aos cus.
- Casaremos no fim da semana que vem, e depois de amanh anunciaremos a data certinha - Harry anunciou.
- J? To cedo?
- A necessidade nos leva a isso. Nosso dinheiro est no fim!
Arilla tornou-se plida mas conseguiu perguntar:
- Harry, est bem certo de que no vai se arrepender?
- Por qu? J est querendo desistir?
- No, no, querido. S no me conformo de v-lo perder toda essa boa vida de Londres.
Ela no pde segurar um suspiro dodo, mas Harry deu uma gostosa risada e a levantou pela cintura, dando um corrupio de valsa.
- Como eu poderia viver aqui em Londres vendo-a sair com outro homem? Como continuar conversando artificialmente com voc nas festas, para depois voltar sozinho
para casa?
Havia tanta sinceridade nessas palavras que Arila sentiu apesar de todos os obstculos que haveriam de encontrar, que estavam procedendo com acerto.
"Fomos destinados um para o outro pensou. Talvez j nos tenhamos encontrado em outras vidas e optado por vivermos juntos eternamente."
111
O noivado foi ento publicado no Gazete; ningum se mostrou surpreso, e a satisfao foi geral.
Todos os congratulavam, apesar de Arilla perceber leves insinuaes sobre o "golpe do ba" que Harry iria dar.
"Pena termos precisado iludir to bons amigos e Harry ser vtima dessas injustas suposies", Arilla pensava.
 medida que os presentes chegavam, eram expostos em Carlton House. Arilla reconhecia, no sem desgosto, que, se no fosse por isso e pela "bno" do prncipe regente,
eles no seriam tantos nem to ricos e suntuosos. Havia tambm peas teis, das quais no pretendia se desfazer.
Em uma das ltimas festas a que tinham comparecido, Harry havia divertido os convidados ao responder  marquesa de Warthjng que quis saber qual o presente que seu
primo, o duque de Vernonwick, mandara.
"Votos de felicidade", ele respondera. "No custam nada! "
Arilla no escondia seu deslumbramento cada vez que entrava na sala dos presentes. Uma valise de couro lavrado a ouro a tinha maravilhado. "Gostaria que Harry guardasse
para ele", pensou, dando um suspiro de melancolia.
O vestido de noiva tambm a preocupara. Pensou usar alguns de seus vestidos de noite, mas temia a perspiccia da condessa de Jersey e a lngua da marquesa de Lieven.
"J resolvi tambm esse problema", Harry dissera. "O presente de Liza vai ser o vestido de noiva."
"No  possvel!  muita coisa para ela; no vou permitir que faa isso."
E quando uma tarde a costureira aparecera para tomar as medidas, Arilla avisara:
"Sua bondade me encanta mas... quero pagar pelo menos uma parte de seu trabalho."
"Em absoluto", Liza respondera. "No ser apenas um presente de casamento mas... a expresso de minha gratido por tudo que a senhora fez por mim."
Arilla a encarara espantada, sem entender, e ela explicara:
"Devo a milady o aumento de minha clientela. Todas querem os modelos que a senhora veste e vai acontecer o mesmo com seu vestido de noiva".
"Tomara!... ", Arilla exclamara. "Muito. muito obrigada."
"Eu  que agradeo e espero muito em breve fazer dezenas de vestidos para milady."
Arilla no teve coragem de desiludi-la e calara-se.
Um dia antes do casamento ser anunciado, Arilla escreveu outra carta para lorde Rochfield, comunicando, de modo gentil, que iria se casar com Harry:
Eu o conheo desde criana, mas s quando cheguei a Londres descobri estar apaixonada e que na realidade ele sempre foi o dono de meu corao. Por favor, entenda.
No nos queira mal mas. deseje-nos felicidade".
No obteve resposta por escrito, mas recebeu uma enorme e horrvel floreira de prata, pela qual, Harry afirmou, poderiam conseguir elevado preo.
- Se eu tivesse um mnimo de orgulho, ou melhor, se eu pudesse, jogaria esse presente na cara de lorde Rochfield - ele observou, ainda com dio.
Arilla assustou-se com a rudeza das palavras de Harry, e logo tratou de distra-lo, dizendo:
- Todos nesta casa esto eufricos com nosso casamento, incluindo seu valete, Watkins. No sabem mais o que fazer para nos agradar e no gostam de pensar no momento
de deixarmos Islington.
Realmente a criadagem estava se esmerando, principalmente na cozinha, para que eles levassem boas lembranas quando partissem.
Arilla desejou muito ser uma exmia cozinheira, para que Harry no estranhasse as refeies no solar.
A nica pessoa que sabia da volta a Little Marchwood e dos planos de trabalho de Harry era o grande amigo Charles.
"Vou contar para ele, querida, porque me ser til aqui em Londres. Ele est sempre a par do mercado de cavalos e poder me ajudar a alcanar bons preos pelos animais."
Sempre que Charles aparecia, a conversa girava sobre cavalos. Havia muito o que falar sobre essa nova atividade que Harry iria explorar.
O bom amigo nunca negara seu auxlio, e Arilla lembrou-se da ocasio em que ela lhe agradecia por um dos seus favores, e ele brincara:
"Estou sempre s ordens, mas devo confessar que me admira sua inocncia e falta de experincia pois, afinal de contas, j foi casada".
Ela enrubescera, e Charles achara graa, mas continuara:
"Est vendo? No conheo nenhuma mulher do beau monde que core assim de uma maneira to graciosa"
"Ser que algum percebeu nossa farsa, Charles? " perguntou ela.
"Qual nada! Todos esto convencidos de que voc  uma viva riqussima e Harry vai fazer um timo negcio! "
Ele notou a expresso de desagrado nos olhos dela e apressou-se em dizer:
"Mas sua inegvel beleza  a razo mais forte desse casamento, e qualquer pessoa mais perspicaz logo chegar a essa concluso".
Todas as vezes que Arilla ficava a ss lembrava-se, com tristeza, das condies desoladoras do solar. Tinha certeza de que Harry iria sofrer muito, porque no teria
as atraes da "city" para compensar as limitaes de um homem sem fortuna e a falta de uma residncia aconchegante.
Quando ela tentou contar-lhe sobre sua inquietao, ele a sossegava:
"Estou disposto a viver s de amor e beijos at arranjarmos dinheiro".
"E se o trabalho no. der certo? " "Est duvidando de minha capacidade? Pensei que tivesse mais confiana em mim!" "Oh, mas eu tenho! Eu te adoro! Voc  maravilhoso!
Apenas estou com medo de que voc tenha de renunciar muito... por minha causa."
"Dois mseros quartinhos na rua Half Moon? Ou a amvel hospitalidade de uns poucos que me fazem de bobo da corte? Afinal de contas, sou um joguete nas mos de Sua
Alteza Real."
Na mesma hora, sentiu-se um ingrato e procurou remendar:
"Eu particularmente gosto muito do prncipe, mas ele  muito absorvente. Quero ter liberdade, ainda que em uma casa destruda pelo tempo, com jardins malcuidados
e uma mulherzinha inquieta! "
"No seja injusto! Eu no sou inquieta. Quero apenas v-lo rodeado daquilo que voc gosta! "
"Eu  que deveria dizer isso a voc. Mas tenho s amor e beijos para lhe dar. Se no for suficiente, meu bem, fuja com lorde Rochfield! "
Ambos caram na risada e se beijaram com a doce ternura dos apaixonados.
"Voc sabe que eu jamais o deixaria", ela murmurou. "No admito a vida sem voc."
"Eu tambm. Sinto que no temos retorno. Acho que estamos no caminho certo."
Novamente os lbios se uniram e no mais trocaram palavras naquele momento, mas muitas emoes.
O dia do casamento chegou, banhado por um sol no muito quente, mas sem dvida o mais lindo sol da Inglaterra. Era um bom pressgio, pensava Arilla.
Harry, completamente curado, voltara para seu alo-1 jamento para no ofender os bons costumes, morando sob o mesmo teto de Arilla. Cada despedida,  noite, era um
sofrimento. Ambos no viam a hora de permanecerem juntos e se livrarem do adeus torturante da separao.
Iam se casar na Igreja de Saint George, em Hanover Square, ao meio-dia, com a presena do prncipe regente. Charles seria o padrinho de Harry. Ele e Anthony ficaram
responsveis pela decorao da igreja, aliviando o noivo de um bom gasto. Ambos mandaram buscar flores das prprias fazendas e seus jardineiros se ocuparam da ornamentao.
O buquet de noiva, de orqudeas brancas e lrios do vale, tambm foi presente de Charles e fez o encanto de Arilla, j entusiasmada por no ter dado despesa para
Harry.
O vestido que Liza fez ficou espetacularmente lindo, deixando-a at embaraada por ter que us-lo. No era branco, pois ela era tida como viva, mas prateado; era
bordado com vidrilhos. Em vez de vu, Arilla usaria um tipo de capuz ornado de flores, tal qual uma deusa da primavera.
No ltimo momento, ela se lembrou de que no tinha ningum para lev-la ao altar.
- No tem importncia - disse Harry -, vou pedir ao prncipe regente.
- E se ele disser. no?
- Peo para outro amigo. Preciso tambm arranjar uma fanfarra de trombetas para sua chegada - Harry acrescentou.
Para Arilla, era como se fosse um sonho de fadas o fato de ser acompanhada atravs da nave principal
pelo herdeiro do trono. Toda a sociedade ferveria em comentrios, os quais no chegariam a seus ouvidos porque ela estaria longe! E ningum saberia onde, exceto
Charles, o grande amigo.
- Espalharei que vocs iro para o continente. Nada mais indicado do que Paris para uma lua-de-mel Charles comentou.
- tima ideia. Ningum pode saber que vamos para o solar! - disse Arilla, agitada.
- Fique sossegada. - E Charles acrescentou: Vocs so corajosos. Acho que eu no teria coragem de fazer o que vocs dois se propuseram.
- Teria, se fosse para casar com Arilla - Harry afirmou, sorrindo.
Uma expresso de amor incontido refletiu-se em seus olhos, e lgrimas de felicidade embaraaram os olhos azuis e brilhantes de Arilla.
A igreja, forrada de veludo, cetim e flores, fervilhava de gente.
Lustres de cristal espargiam o multicolorido de sua lapidao preciosa por sobre as cabeas da elite londrina.
Enquanto o bispo de Londres administrava o sacramento do matrimnio, Arilla implorava a Deus e a seus queridos pais que a ajudassem a fazer Harry feliz.
O jovem casal, exultante ao descer os degraus do altar, fez at os mais cticos se comoverem ante a beleza do amor transbordante de suas almas radiosas.
Mais tarde, ao comentar a recepo de Carlton House, Charles diria nunca haver participado de uma reunio to alegre e descontrada. A magia do momento havia arrebatado
a todos os convivas.
O prncipe regente fizera um espirituoso discurso que contribura ainda mais para o xito da festa.
Harry muito gentilmente agradecia a presena de
cada um e os magnficos presentes que estavam em exposio na sala chinesa de Carlton House. No podia deixar de pensar no dinheiro que conseguiria e os manteria
com fartura, por muito tempo.
Mais uma vez, uma carruagem luxuosa e confortvel, emprestada de lorde Barlow, os transportava com elegante realeza pelas ruas de Londres, quando Arilla, apreensiva,
perguntou:
- Harry, para onde estamos indo?
- Vamos passar mais uma noite no luxo e na riqueza de Islington. No se preocupe porque os criados j foram avisados para guardar segredo; portanto, nossa intimidade
ser preservada.
Ele deu uma risadinha e apertou a mo de Arilla. fria mas acariciante.
- Teremos comida deliciosa, cama divina e mordomia perfeita. Amanh enfrentaremos o nosso mundo.
- Est pessimista?
- Como poderia estar se tenho voc comigo? Dessa vez no a beijou no rosto, como ela esperava,
mas beijou seus dedos, um por um, at cobrir-lhe toda a palma das mos com a suavidade de seus lbios macios.
Ao mesmo tempo que sentiu o gelado do pequeno aro de ouro do anular de Arilla, percebeu em seus olhos um lampejo de satisfao e vaidade.
Fora a nica e grande despesa que Harry tivera. Por muito tempo ela usara a aliana da me, mas ele achou que a unio deveria ser selada no s por lei civil e religiosa,
mas tambm com o simbolismo tradicional de uma aliana de casamento.
"Agora no h mais perigo de voc escapar", ele brincara ao entregar-lhe a caixinha de veludo azul com o anel nupcial.
"At parece que eu quero fugir", ela protestara.
"Voc  muito bonita e no faltaro lordes Rochfield para roub-la de mim." Apertara-a to fortemente como se temesse perd-la.
Chegaram a Islington. Depois das recomendaes ao cocheiro e ao lacaio para que no revelassem onde os haviam deixado, entraram, acolhidos por Rose.
O salo de estar parecia um jardim. Toda a criadagem tinha se cotizado para a compra das flores e, alegres, foram cumpriment-los, retirando-se em pouco tempo.
Harry, pleno de felicidade, segurou Arilla com as duas mos e, encarando-a emocionado, disse:
- Deixe-me olhar para minha querida mulherzinha. Ser mesmo verdade... que voc me pertence?
-  o que tambm pergunto - ela respondeu, ansiosa.
- Eu te amo, querida - Harry sussurrou -, e por isso no temo os dias que viro...
- Estou to extasiada que nem penso no futuro! Hoje s existe o presente para mim, meu querido.
- E  por isso que no vou esperar um segundo sequer para lhe mostrar o quanto a amo.
Subiram para o quarto de mos enlaadas, onde Harry a ajudou a se desvencilhar do difano vestido de noiva e a levou para o leito.
- Quanto eu sonhei com este momento - balbuciou ao inclinar-se sobre ela, que se aconchegou mais para junto dele a fim de ouvi-lo e senti-lo melhor.
- Serei muito gentil, minha inocente criana. No vou machucar e nem chocar voc...
- Voc seria capaz disso? Sabe, quando voc me toca,  como se fosse um raio de sol aquecendo e acariciando meu corpo todo. - Um longo suspiro brotou
do fundo de seu corao. - Quero que voc me beije... e continue me beijando eternamente...
Ele a beijou sem parar e, de repente, uma divina luz pareceu envolv-los at tocar o mago de suas almas.
Arila ouviu sinos tocando e anjos entoando celestial cano! O mundo sumira. desfizera-se no calor de tantas emoes! E os dois amantes, unidos em um nico ser,
entregaram-se ao etreo universo do amor.
Arila abriu os olhos vagarosamente. Uma brisa leve balanava as cortinas, e os raios de sol se infiltravam no quarto, fazendo desenhos de luz pelas paredes.
Ao estender o brao, tocou o corpo de Harry, que dormia um sono profundo. Parou por um segundo ao impacto de to grande felicidade, para depois estremecer de prazer
 lembrana da noite anterior. No fora um sonho! Ela era mulher de Harry!
Pela primeira vez entendeu onde lorde Rochfield queria chegar. Preferia estar morta se ele a tivesse possudo. No entanto, agora com Harry, mais do que nunca seu
desejo era viver... Viver muito para desfrutar das venturas da alma e do corpo, de que Harry era to rico!
Tinham jantado no boudoir, tambm todo decorado de flores naturais. Ela no conseguia lembrar o que comera, mas devia ter sido ambrsia, o manjar dos deuses, acompanhado
pelo nctar sagrado, pois no pareciam estar em Islington, mas sim na divina colina do Olimpo.
Depois. a sensao estranha mas deliciosa de que o mundo se acabara, largando-os envoltos em uma luz milagrosa, provinda no s de Deus como de seus prprios corpos.
Harry revirou-se na cama tirando-a de suas reflexes e, ao sentir a presena quente de Arila, apertou-a contra si, perguntando com brandura:
- Est feliz, minha querida?
- To feliz que. no me parece estar na terra mas... no paraso!
- Pois foi onde estivemos ontem, meu amor. E... poderemos viver cem anos, mas jamais esqueceremos nossa primeira noite! - Harry disse, beijando-a com doce enlevo.
- Vamos tomar o caf da manh aqui em cima. Depois partiremos para nosso "serto". Mas antes quero contar um segredo para voc nesta manh das manhs: sou o homem
mais feliz do mundo! A paz que sinto agora  muito maior e mais compensadora do que todas as riquezas da terra.
Antes que Arilla articulasse palavra ele j havia coberto seus lbios de beijos e, outra vez, o quarto se inundou de uma luz e um calor que divinamente lhes abrasaram
as entranhas.
Arilla admirava a bela figura de Harry, com um confortvel roupo atoalhado com alamares dourados que lhe davam o aspecto de elegante militar.
Como ela gostaria de t-lo visto com o uniforme da Guarda Real Britnica!
Ele tambm a observava, extasiando-se com a beleza dos cabelos dourados que caam-lhe em cascata sobre os ombros delineados atravs da transparncia de um sedutor
nglig branco.
- Outro presente de Liza - Arilla falou, segurando com graa a fmbria do esvoaante penhoar. - Desta vez no vou ajudar Liza porque. ningum vai me ver nesses trajes.
- O que interessa  que eu a estou vendo e me deliciando.  o quanto basta.
Arilla deu uma risada cristalina e se aconchegou ao marido com a malcia de um felino pedindo afago.
Mas. firmes batidas na porta interromperam o preldio amoroso.
Quem ? - Harry exclamou, contrariado.
- Desculpe incomod-lo, capito - Watkins disse -, porm h um senhor l embaixo que insiste em v-lo.
- O que ser? - Harry sobressaltou-se.
-  um assunto urgente. Ele quer falar com o senhor imediatamente.
- Faa-o subir. Mas que seja breve, pois estamos partindo para uma viagem. - Seu tom de voz era irritado.
- Est bem, capito.
- Pensei que ningum soubesse que estvamos aqui, alm de Charles e Watkins! - Arilla observou, surpreendida.
- Ser que  algum credor? Meu Deus!. No tenho dinheiro agora, vai ter que esperar.
Arilla ficou gelada. "Pronto! L se vo nossas guas, garanhes e potrinhos... ", pensou e ps-se a rezar com fervor.
No trocaram palavra at que Watkins apareceu com um homem bem-apessoado, de meia-idade. Tinha toda a aparncia de um advogado.
O corao de Arilla bateu descompassado, e Harry, sem disfarar sua contrariedade, disse:
- Bom-dia. Quem  o senhor?
- Talvez seja o mensageiro de notcia no muito agradvel. Cumpre-me o dever de lhe comunicar, com o meu mais profundo sentimento, que seu primo, o duque de Vernonwick
foi morto ontem, pela manh.
- Assassinado! - Harry gritou.
- No. O telhado da sala oeste desabou quando Sua Graa o estava inspecionando. A marquesa de Vernon estava em sua companhia quando as vigas despencaram atingindo
a ambos mortalmente.
Harry permanecia paralisado enquanto o estranho continuava:
- Meu nome  Matthews e sou o procurador de Sua Graa. Matthews, Fisher e Colby - ele se apresentou. - Agora, Vossa Senhoria  o quarto duque e dever comparecer
o mais depressa possvel a Vernon Park a fim de providenciar o funeral e tomar posse da manso e das terras... Haver algumas dificuldades porque Sua Graa era muito
preocupado em no diminuir fortuna, portanto...
- O telhado caiu-lhe sobre a cabea - Harry completou.
- Isso mesmo. A propriedade est em franca decadncia, os empregados tambm pois no recebem h anos! Mas. h grandes somas no banco e lhe ser fcil a recuperao
de tudo.
- Principalmente se eu contar com a sua ajuda. Um sorriso aberto mudou a face taciturna do profissional, que disse:
- tima notcia! Foi muito difcil trabalhar com Sua Graa. No largava a mnima quantia em nossas mos e no aceitava sugestes para rendosos investimentos.
Harry parecia ter crescido em porte e segurana, pensou Arilla, trmula de espanto ao ouvi-lo ordenar com altivez:
- Adquira imediatamente em Jackson's Livery Stables o mais rpido faetonte, as melhores parelhas disponveis e um cavalario para me servir. - Parou um momento para
pr em ordem o afluxo de pensamentos que lhe invadiu a mente e prosseguiu: - So quatro horas at Vernon Park. Chegaremos l o mais depressa possvel.
Olhou para Arilla, ainda plida, e com ares de senhor feudal voltou-se para o sr. Matthews e acrescentou:
- Quero o senhor e seus assistentes, ainda hoje, na Manso Vernonwick. J iniciaremos os estudos para normalizar a situao das propriedades.
- Estaremos  sua espera, milorde, e obrigado por nos livrar da grande ansiedade que nos afligiu durante tanto tempo. A que horas Sua Graa deseja a carruagem em
sua porta?
- Em duas horas.
- Farei o possvel. At logo, ento.
O sr. Matthews ia saindo quando Harry o fez parar.
- Diga-me uma coisa: como o senhor me achou?
- Assim que cheguei a Londres, ontem, tarde da noite, fui a Carlton House. O mordomo me informou que a noiva de Sua Graa morava aqui e, naturalmente, a criadagem
saberia para onde sua bagagem havia sido enviada.
Harry deu uma risada sonora e disse:
- Simples!
- Sim, milorde.
A porta fechou-se atrs de Matthews, e Harry deu vazo  sua alegria, antes oprimida por estupefao e convenincia. Tomou Arilla nos braos e puseram-se a rodopiar
pelo quarto de vestir, em largos passos de dana.
- Voc  a minha boa estrela! Minha querida, voc me trouxe sorte! Tudo aconteceu por sua causa!
- No sei bem por qu. Que bom! Mas, agora que  um homem rico, ser. que ainda me quer?
- Deixe de ser bobinha.  lgico. eu a amo com todas as foras de minha alma. Vamos trabalhar juntos, mas de maneira muito diferente daquela que planejamos! Teremos
milhes de problemas a resolver. Pelo jeito a manso est mais delapidada que o solar. H muito dinheiro  nossa espera no banco, e em pouco tempo estaro feitas
todas as restauraes necessrias, incluindo as do solar de sua famlia, o qual lhe  to caro.
Arilla quase chorou de felicidade. Beijou Harry com muito carinho e expresso de imenso agradecimento. Mas ele a abraou com desejo indisfarvel e segredoulhe ao
ouvido:
- Sabe porque pedi o faetonte s para daqui a duas horas?
- Achei esquisito porque no levaremos tanto tempo assim para nos vestir...
No vamos nos vestir j. Essa  a nossa primeira manh. Funerais, propriedades, dinheiro podero esperar. mas... o amor e os beijos que voc me prometeu, querida,
jamais! - Ele abriu os braos para que ela se abrigasse neles, entregando-se s carcias e aos beijos cada vez mais ardentes, conhecendo o delrio de uma paixo.
Um calor suave a princpio e crescente em intensidade a tomou por completo. Havia meiguice e ardor nos beijos de Harry. Ele era uma deliciosa mescla de masculinidade
e doura.
E o universo parou naquele instante em que as duas almas se fundiam em total e bem-aventurado abandono, para se completarem na plenitude do prazer. alm da terra.
alm do infinito.

Fim
QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de 350 milhes de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita importncia aos aspectos
mais superficiais do sexo, o pblico se deixou conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. E ficou fascinado pela maneira como constri
suas tramas, em cenrios que vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso
das reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e teatrloga. Mas Barbara
Cartland se interessa tanto pelos valores do passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por
sua luta em defesa de melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.

Fim
